
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, expuseram nesta segunda-feira (29) visões distintas sobre os caminhos da economia brasileira, evidenciando as tensões entre a política monetária restritiva e as expectativas do governo por maior crescimento. Ambos participaram de evento do Itaú BBA em São Paulo, onde reforçaram suas posições sobre inflação, juros e desenvolvimento econômico.
Galípolo manteve o discurso técnico de que não existe “atalho” para levar a inflação à meta de 3%, defendendo a manutenção da Selic em 15% pelo tempo necessário. “Quando se pega o atalho, geralmente o caminho de volta fica mais longo e aumenta a distância para o objetivo”, afirmou o presidente do BC, reconhecendo que o atual patamar de juros é elevado, mas necessário.
O presidente da autarquia reforçou que a autoridade monetária segue “dependente dos dados” e não pode “se emocionar” com informações isoladas para definir os rumos da política monetária. Ele destacou que a inflação de serviços permanece em nível “bastante alto e incompatível com a meta”, enquanto o mercado de trabalho está no patamar mais “exuberante” da história do país.
Galípolo admitiu que o Brasil historicamente mantém juros básicos superiores aos de outros países, mas pontuou que essa questão não será solucionada com “bala de prata” e precisa estar no debate público. “É uma questão que essa geração vai ter que tratar”, afirmou, sinalizando que a solução demanda tempo e reformas estruturais.
Haddad defende gradualismo fiscal
Em contraste, Haddad defendeu um ajuste fiscal “gradual, mas consistente”, argumentando que o governo optou por reformas que criam ambiente para crescimento do PIB potencial. O ministro destacou que o esforço fiscal continuará, mas sempre partindo do “princípio do que é mais justo a ser feito”.
Haddad citou como exemplo a mudança na regra de correção do salário mínimo, que reduziu impacto fiscal mas foi feita com “inteligência”, considerando que o Brasil tem um dos menores salários mínimos da América do Sul. “Será que não tem um jeito inteligente de fazer uma política de modernização fiscal mais equilibrada?”, questionou.
O ministro criticou o discurso do mercado financeiro sobre equilíbrio fiscal, alegando que não leva em consideração fatores relevantes como gastos tributários combatidos pelo governo. Segundo ele, houve grande esforço de recuperação da base fiscal nos últimos três anos, implicando enfrentar interesses “particularistas”.
“É muito desgastante, você sabe que enfrentar interesses particularistas no Brasil é muito mais difícil do que enfrentar interesses gerais”, declarou Haddad, destacando que a receita líquida subiu de 17% para cerca de 19% do PIB durante sua gestão, após “limar” gastos tributários.
Divergências sobre crescimento
As divergências se acentuam na análise sobre o crescimento econômico. Enquanto Haddad projeta que reformas recentes permitirão ao Brasil “crescer na média mundial”, Galípolo demonstrou ceticismo sobre aumento real do PIB.
O presidente do BC avaliou que, exceto pelo setor agropecuário, é difícil encontrar pontos evidentes que elevaram o PIB potencial. “No crescimento do PIB dos últimos anos, temos visto um crescimento sobre a lógica da demanda”, explicou, mencionando que o aumento da participação no mercado de trabalho não representou necessariamente ganho relevante de produtividade.
Haddad, por sua vez, considera que o próximo governo herdará situação fiscal mais positiva, permitindo crescimento sustentável. “Nós preferimos o caminho mais difícil de buscar justiça tributária. De fazer quem não paga, pagar”, afirmou o ministro.