
A música sempre foi ferramenta de protesto, afirmação identitária e disputa simbólica. O Grammy Awards de 2026, realizado no domingo (1º), explicitou essa vocação com rara nitidez. A maior noite da indústria fonográfica reuniu performances, prêmios e discursos que colocaram imigração, pertencimento e poder no centro do palco; ao mesmo tempo em que confirmou uma inflexão histórica rumo a um pop mais multilíngue, transnacional e politizado.
O momento mais emblemático foi protagonizado por Bad Bunny. Ao receber o prêmio de Melhor Álbum de Música Urbana, o astro porto-riquenho abriu o discurso com uma frase que incendiou o público: “Antes de agradecer a Deus, vou dizer ‘ICE fora’.” A ovação foi imediata. Em seguida, ele explicitou o alvo: “Nós não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos.” A declaração estabeleceu o tom de uma cerimônia em que o silêncio deixou de ser opção para muitos artistas.
Horas depois, Bad Bunny faria história novamente ao vencer Álbum do Ano com “Debí Tirar Más Fotos”, tornando-se o primeiro artista de língua espanhola a conquistar o prêmio máximo do Grammy em 68 anos. Visivelmente emocionado, discursou majoritariamente em espanhol e dedicou a vitória “a todas as pessoas que tiveram de deixar sua terra natal para seguir seus sonhos”. O triunfo superou trabalhos de nomes como Justin Bieber, Kendrick Lamar, Sabrina Carpenter e Tyler, the Creator, simbolizando uma ruptura num momento em que comunidades latinas se sentem crescentemente pressionadas nos EUA
O peso político da vitória não passou despercebido. Bad Bunny será, em uma semana, a atração principal do show do intervalo do Super Bowl, feito inédito para um artista solo latino e de língua espanhola — escolha criticada publicamente pelo presidente Donald Trump. O cantor, por sua vez, já havia explicado que preocupações com a atuação do ICE motivaram a exclusão dos EUA de uma turnê recente. No Grammy, sua posição foi cristalina: música e política caminham juntas quando a própria existência está em disputa.
Outros artistas reforçaram essa linha. Billie Eilish, ao vencer Canção do Ano, dedicou o prêmio aos imigrantes e afirmou: “Ninguém é ilegal em terra roubada.” Olivia Dean, eleita Artista Revelação, trouxe a dimensão pessoal: “Estou aqui como neta de um imigrante. Sou fruto de coragem.” Mesmo discursos menos confrontacionais, como o de SZA ao receber Gravação do Ano por “Luther”, enfatizaram solidariedade e resistência coletiva.
Se o centro da noite foi marcado por embates políticos, a premiação também consolidou uma mudança mais ampla na geografia do pop. O domínio de Bad Bunny, o sucesso global de artistas ligados ao K-pop ao longo de 2025 e a valorização de repertórios não anglófonos indicam um Grammy menos ancorado nas tradições do pop ocidental e mais atento a fluxos culturais globais.
Prêmio para o Brasil
Nesse cenário, o Brasil teve um momento de consagração simbólica. Caetano Veloso e Maria Bethânia venceram o Grammy de Melhor Álbum de Música Global com “Caetano e Bethânia Ao Vivo”. Ausentes da cerimônia, tiveram o prêmio recebido em seu nome por Dee Dee Bridgewater. A vitória marca a primeira estatueta de Bethânia — que completa 80 anos em junho — e a consolida como a primeira intérprete da MPB a vencer o Grammy, feito histórico para uma artista cuja trajetória sempre foi central na música brasileira, mas raramente reconhecida por premiações internacionais.
Para Caetano, já vencedor em outras edições, o prêmio não altera seu status canônico, mas reforça a longevidade e a relevância de uma obra que atravessa décadas. Um vídeo publicado pelo cantor nas redes sociais mostrou o tom íntimo da conquista: ao avisar a irmã por telefone, ouviu dela a reação despretensiosa — “Eu nem sabia que horas era” — antes do simples “parabéns para nós”.
A justaposição desses momentos — protestos explícitos, vitórias históricas e consagrações tardias — ajuda a explicar por que o Grammy de 2026 soou menos como espetáculo escapista e mais como testemunho do tempo presente.