
Quando Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, o plano era simples e ambicioso: tomar Kiev em dois dias, exibir ao mundo o músculo de uma Rússia renovada e consolidar um projeto neoimperial que o líder do Kremlin vinha construindo há anos. Quatro anos depois, o que restou dessa visão é um mosaico de conquistas parciais, derrotas simbólicas e um país cada vez mais dependente de aliados que o tratam como sócio menor.
A Rússia ocupa hoje cerca de 20% do território ucraniano, mas o avanço tem sido medido literalmente em metros. Em ofensivas no leste do país, como em Chasiv Yar, Kupiansk e Pokrovsk, o avanço médio diário ficou abaixo de 100 metros, um ritmo inferior ao da Batalha do Somme, na Primeira Guerra Mundial. Um estudo divulgado em janeiro pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) colocou em perspectiva o desempenho russo: no 1.394º dia após a Operação Barbarossa, o Exército Vermelho estava às portas de Berlim. No mesmo marco temporal desta guerra, em dezembro de 2025, as tropas russas mal haviam chegado a Pokrovsk, a mais de 500 quilômetros de Kiev.
O custo humano é devastador. Segundo o levantamento do CSIS, cerca de 1,2 milhão de soldados russos morreram, foram feridos ou estão desaparecidos, com estimativa de 325 mil mortos. Do lado ucraniano, as estimativas apontam aproximadamente 600 mil baixas, com até 140 mil mortos confirmados. Os números fazem desta guerra o conflito mais letal envolvendo uma grande potência desde a Segunda Guerra Mundial. O número de mortos russos nos campos de batalha é mais de 17 vezes maior do que o registrado na guerra soviética no Afeganistão.
Além das trincheiras, o conflito desgastou as estruturas do Estado russo. A economia de guerra sustentou o crescimento por dois anos, 4,1% em 2023 e 4,3% em 2024, mas os sinais de exaustão chegaram em 2025, quando o PIB cresceu apenas 0,6%. A inflação disparou, os alimentos ficaram 18,1% mais caros entre 2024 e 2026 e o déficit público atingiu 2,6% do PIB. As taxas de juros chegaram a 21% ao ano para conter a pressão inflacionária. O modelo funcionou por mais tempo do que muitos analistas esperavam — Joe Biden chegou a prever que as sanções reduziriam a economia russa “pela metade” —, mas acumulou distorções que se tornarão mais visíveis quando a guerra terminar.
No plano geopolítico, o isolamento de Putin é crescente. Em abril de 2022, a Rússia se tornou o segundo país suspenso do Conselho de Direitos Humanos da ONU. No ano seguinte, o Tribunal Penal Internacional emitiu ordem internacional de prisão contra o líder russo, restringindo sua circulação. Putin passou a frequentar apenas países que não integram o tribunal.
A “amizade sem limites” com a China virou o principal eixo de sustentação do Kremlin, mas a relação é assimétrica: em 2024, 57% de todos os produtos importados pela Rússia vinham de Pequim. A eleição de Donald Trump nos EUA trouxe algum alívio simbólico a Moscou, mas menos do que o Kremlin esperava. Apesar da retórica favorável do republicano, as sanções ao setor petrolífero russo foram mantidas e endurecidas, e uma normalização real das relações com Washington ainda não se concretizou.
No Brasil, o conflito produziu oscilações diplomáticas. O governo Bolsonaro expressou “solidariedade” à Rússia às vésperas da invasão. Já Lula, após chamar Zelensky de corresponsável pela guerra durante a campanha eleitoral de 2022, adotou tom mais moderado no poder, reconhecendo a Rússia como agressora e propondo a criação de um “Clube da Paz” — grupo de países neutros que atuaria como mediador nas negociações. Em setembro de 2025, Lula voltou a se reunir com Zelensky em Nova York para reforçar esse compromisso.
Quatro anos depois do início da guerra, nem a vitória russa nem a paz parecem próximas. O que se acumula, enquanto isso, são mortos, dívidas e um mundo mais instável.