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A madrugada desta quinta-feira (26) marcou um ponto de inflexão na carreira de Gui Santos. Pela primeira vez desde que chegou à NBA, o ala brasileiro foi cestinha de uma partida, anotando 31 pontos na vitória do Golden State Warriors sobre o Brooklyn Nets por 109 a 106, no Chase Center, em San Francisco. Mais do que um desempenho estatístico expressivo, a atuação simboliza sua consolidação como peça relevante na rotação da equipe comandada por Steve Kerr.

O feito coloca Gui em um grupo restrito de brasileiros que ultrapassaram a marca de 30 pontos em um jogo da liga, ao lado de nomes como Leandro Barbosa, Nenê Hilário e Anderson Varejão. Mais significativo ainda: ele é o primeiro brasileiro a alcançar esse número em mais de uma década, interrompendo um hiato que evidenciava a ausência de protagonismo nacional na principal liga de basquete do mundo.

A performance acontece em um contexto de maior protagonismo dentro da equipe. Com desfalques importantes, incluindo a ausência de Stephen Curry em alguns jogos recentes, Gui passou a receber mais minutos e responsabilidades. Sua atuação contra os Nets foi um reflexo direto dessa confiança: além dos 31 pontos, contribuiu com rebotes, roubos de bola e presença constante no ataque.

A ascensão do brasileiro no elenco dos Warriors não ocorreu de forma imediata. Selecionado na 55ª posição do Draft de 2022, Gui trilhou um caminho gradual, passando pela equipe afiliada na G-League até se firmar na rotação principal a partir da temporada 2023-24. Em fevereiro de 2026, a franquia reforçou sua aposta ao renovar seu contrato por três anos, em um acordo avaliado em cerca de US$ 15 milhões.

Amadurecimento

Dentro de quadra, sua evolução é visível. Inicialmente reconhecido pela energia e versatilidade, Gui ampliou seu repertório técnico e físico. Hoje, combina intensidade defensiva com eficiência ofensiva. Sua movimentação sem a bola — elemento central no sistema dos Warriors — o coloca em sintonia com o estilo consagrado da equipe. Nos últimos jogos, liderou o time em distância percorrida em quadra, superando inclusive Curry, referência nesse quesito.

Ofensivamente, destaca-se pela objetividade. Seus arremessos surgem majoritariamente em situações de “catch and shoot” ou em infiltrações ao garrafão, onde utiliza força física e leitura de jogo para finalizar ou criar oportunidades para os companheiros. A evolução muscular recente ampliou sua capacidade de absorver contato e defender adversários mais fortes, algo frequentemente elogiado por colegas como Draymond Green.

Além disso, Gui passou a atuar como organizador secundário em determinados momentos, especialmente na ausência de armadores titulares. Essa versatilidade tática, que é algo raro para um jogador jovem, tem sido determinante para seu crescimento e para a confiança depositada pela comissão técnica.

Trajetória

Nascido em Brasília em 2002, Guilherme Carvalho dos Santos cresceu em um ambiente ligado ao basquete, sendo filho de um ex-jogador profissional. Desde cedo, destacou-se nas categorias de base pela combinação de habilidade atlética e inteligência de jogo. Sua seleção no Draft de 2022 marcou o início de uma trajetória que hoje o posiciona como uma das principais promessas do esporte no país.

A história de Gui também dialoga com a tradição brasileira na NBA. Desde a participação pioneira de Rolando Ferreira no fim dos anos 1980, o Brasil construiu uma presença consistente na liga, com nomes que ajudaram a elevar o patamar do basquete nacional. Entre eles, destaca-se Tiago Splitter, primeiro brasileiro campeão da NBA, com o San Antonio Spurs em 2014.

Splitter não apenas abriu caminhos dentro de quadra, mas também segue influente fora dela, tendo atuado como treinador na liga e contribuído para a formação de novos atletas. Sua trajetória simboliza a consolidação de uma geração que pavimentou o caminho para talentos como Gui Santos.

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