
O chefe do Instagram afirmou nesta terça-feira (11), em evento público nos Estados Unidos, que não há evidência científica suficiente para classificar o uso de redes sociais como um “vício clínico”. A declaração ocorreu durante debate sobre saúde mental juvenil e responsabilidade das plataformas digitais, em meio a uma série de processos judiciais contra a Meta, empresa controladora do Instagram.
Ao responder a questionamentos sobre o impacto das redes sociais em adolescentes, o executivo afirmou que o termo “vício” tem sido utilizado de forma ampla no debate público, mas não corresponde a um diagnóstico médico formal reconhecido por manuais internacionais. Segundo ele, o uso excessivo pode ser problemático em determinados contextos, mas não se equipara, do ponto de vista clínico, a dependências oficialmente catalogadas.
A fala ganhou repercussão porque ocorre em um momento de intensificação de ações judiciais e iniciativas regulatórias voltadas às big techs.
Por que a declaração ocorre agora
Nos Estados Unidos, mais de 30 estados movem processos contra a Meta, alegando que a empresa projetou deliberadamente seus produtos para maximizar engajamento por meio de mecanismos como rolagem infinita, notificações frequentes e sistemas de recomendação algorítmica.
As ações sustentam que essas ferramentas contribuiriam para o agravamento de quadros de ansiedade, depressão e distúrbios alimentares entre adolescentes. Distritos escolares também ingressaram com processos semelhantes.
A empresa contesta as acusações e afirma que implementou ferramentas de controle parental, limites de tempo de uso e ajustes no algoritmo para reduzir conteúdos potencialmente prejudiciais.
O que diz a ciência
A Organização Mundial da Saúde reconhece oficialmente o transtorno de jogos eletrônicos como condição clínica, mas não classifica o uso de redes sociais como vício formal. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria também não inclui “vício em redes sociais” como categoria específica.
Pesquisas acadêmicas recentes utilizam o termo “uso problemático de redes sociais” para descrever padrões compulsivos que podem gerar prejuízo funcional. Estudos conduzidos por universidades nos Estados Unidos e na Europa apontam correlação entre uso intensivo de plataformas e sintomas como ansiedade, insônia e baixa autoestima, especialmente entre adolescentes.
Especialistas, contudo, alertam que a relação é complexa e envolve múltiplos fatores, como contexto familiar, histórico prévio de saúde mental e dinâmica social.
O cenário regulatório internacional
A declaração também ocorre sob pressão regulatória na União Europeia, onde o Regulamento de Serviços Digitais exige que grandes plataformas avaliem riscos sistêmicos, incluindo impactos sobre menores. No Reino Unido, o Online Safety Act estabelece deveres adicionais de proteção a crianças e adolescentes.
Ainda que redes sociais não sejam formalmente classificadas como vício clínico, legisladores têm avançado em medidas baseadas no princípio da mitigação de risco e dever de cuidado.
A controvérsia envolve mais do que terminologia. Caso o uso de redes sociais fosse reconhecido como vício clínico, isso poderia fortalecer ações judiciais e fundamentar regulações mais rígidas sobre design de plataformas.
Ao rejeitar essa classificação, o chefe do Instagram reforça a estratégia das empresas de tecnologia de separar o debate médico do debate regulatório. O embate agora se desloca para uma pergunta central: até que ponto o design algorítmico pode ser responsabilizado por comportamentos compulsivos em escala global.