México
Ulises Ruiz / AFP

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), no sábado (22), durante operação federal no estado de Jalisco, desencadeou uma onda coordenada de violência em diferentes regiões do México e reacendeu o debate sobre soberania nacional após confirmação de apoio de inteligência dos Estados Unidos.

A ofensiva ocorreu na região serrana de Tapalpa, em Jalisco, reduto histórico do cartel. Segundo o governo mexicano, a operação foi conduzida pelo Exército e pela Guarda Nacional, com compartilhamento de informações de uma força-tarefa americana criada para intensificar o combate a organizações transnacionais ligadas ao tráfico de fentanil.

Desde então, ao menos 25 integrantes da Guarda Nacional morreram em confrontos associados à reação do CJNG. Mais de 70 pessoas foram presas em ações de resposta até esta segunda-feira (23).

Bloqueios e estados afetados

Autoridades federais e estaduais confirmaram bloqueios e ataques em pelo menos 16 estados, entre eles Jalisco, Michoacán, Guanajuato, Colima, Guerrero, Estado do México, Zacatecas, Nayarit e Sinaloa. Em Jalisco, epicentro da crise, caminhões e ônibus foram incendiados para bloquear rodovias federais e vias de acesso a Guadalajara. Postos de gasolina e estabelecimentos comerciais também foram alvo de ataques.

Em Michoacán e Guanajuato, confrontos armados interromperam o tráfego em trechos estratégicos de rodovias federais. Em Colima e Guerrero, houve registros de disparos contra instalações públicas e veículos de segurança. Estados vizinhos registraram bloqueios preventivos e reforço policial diante do risco de expansão da violência.

Cidades como Guadalajara, Puerto Vallarta e Morelia reforçaram o patrulhamento e suspenderam temporariamente aulas presenciais. Governos estaduais recomendaram que a população evitasse deslocamentos não essenciais. A Secretaria de Segurança mexicana informou que a mobilização dos bloqueios indica tentativa de retaliação coordenada para pressionar o Estado e demonstrar capacidade de controle territorial após a morte do líder do cartel.

Atual situação do país

Nesta segunda-feira (23), o México permanece em alerta elevado. Forças federais foram deslocadas para estados considerados estratégicos, com reforço de patrulhamento em rodovias, aeroportos e centros urbanos. Operações de busca e captura continuam em andamento.

Autoridades afirmam que a violência tende a se concentrar nas áreas historicamente dominadas pelo CJNG, mas monitoram possíveis disputas internas por sucessão no comando da organização. Especialistas em segurança alertam que a fragmentação de cartéis após a morte de lideranças pode gerar conflitos entre facções rivais e aumento temporário da violência.

Fala da presidente do México

A presidente Claudia Sheinbaum declarou, em pronunciamento no domingo (23), que a cooperação com os Estados Unidos ocorreu dentro de acordos bilaterais vigentes e que “as decisões operacionais foram tomadas por autoridades mexicanas”.

Ela afirmou que a soberania do país foi respeitada e que o governo manterá presença reforçada das forças federais até a estabilização da situação. Também reiterou que o combate ao crime organizado seguirá como prioridade, especialmente diante da pressão internacional sobre o tráfico de opioides sintéticos.

Setores da oposição pediram esclarecimentos sobre o grau de envolvimento americano na operação e cobraram transparência sobre o funcionamento da nova força-tarefa bilateral.

Pressão de Washington

Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump afirmou que o México “precisa intensificar os esforços contra os cartéis” e declarou que a cooperação entre os dois países deve ser ampliada. Segundo ele, “os cartéis representam uma ameaça direta à segurança americana” e o combate às organizações criminosas deve ser tratado como prioridade estratégica.

Trump também afirmou que os Estados Unidos “não podem permitir que drogas continuem atravessando a fronteira” e defendeu ações mais rigorosas contra grupos envolvidos no tráfico de fentanil. As declarações aumentam a pressão política sobre o governo mexicano e reforçam o componente internacional da crise.

Cooperação e soberania

A participação dos Estados Unidos reacende um debate histórico no México e na América Latina. Desde a Iniciativa Mérida, firmada em 2008, Washington fornece recursos, tecnologia e treinamento às forças mexicanas.

O diferencial desta operação está na integração ampliada de inteligência e no contexto político atual, marcado por pressão americana para conter o fluxo de fentanil que abastece o mercado dos EUA.

A morte de El Mencho, um dos narcotraficantes mais procurados internacionalmente, representa golpe relevante contra o CJNG. O efeito prático sobre a violência, no entanto, ainda é incerto.

O país entra na semana sob forte mobilização de segurança, com impactos logísticos, suspensão de serviços e tensão política. O desdobramento da crise poderá influenciar tanto a política interna mexicana quanto o debate regional sobre os limites da cooperação em segurança entre América Latina e Estados Unidos.

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