José Zenildo Trajano/Funbio

Um novo relatório internacional divulgado durante as Reuniões Anuais do Banco Mundial revela que investimentos de US$ 350 bilhões em resiliência climática podem criar mais de 280 milhões de novos empregos em economias emergentes e em desenvolvimento até 2035. O estudo “The Returns on Resilience” (Os Retornos da Resiliência), lançado como parte da contagem regressiva para a COP30, oferece a análise mais abrangente sobre os benefícios econômicos e financeiros dos investimentos em adaptação climática.

Com base em dados de mais de 120 organizações e 70 publicações de referência, incluindo o World Resources Institute e a London School of Economics, o relatório demonstra que os investimentos em adaptação geram pelo menos quatro vezes mais benefícios do que custos, com uma taxa média de retorno anual de 25%. O mercado de adaptação e resiliência pode atingir US$ 1,3 trilhão por ano até 2030, enquanto o investimento nessa área pode aumentar o PIB em até 15% até 2050 em alguns países vulneráveis.

Custos da inação superam investimentos

Em contraste com os retornos potenciais, o relatório quantifica o custo crescente da inação climática. Eventos climáticos extremos já eliminaram pelo menos US$ 525 bilhões em crescimento ao longo de duas décadas nas economias emergentes. Desastres como secas, enchentes e ondas de calor extremas deslocam mais de 20 milhões de pessoas anualmente e destroem infraestruturas essenciais, deixando os países menos desenvolvidos aproximadamente 10% mais pobres do que estariam sem os efeitos da instabilidade climática.

Caso nenhuma medida seja tomada, choques agudos e mudanças graduais causadas pelo aumento das temperaturas podem gerar perdas de até US$ 1,2 trilhão até a década de 2050 para as maiores empresas do mundo, além de uma queda global do PIB entre 18% e 23% até 2050.

Alice Amorim, diretora de Programa da Presidência da COP30, reforça que “construir adaptação e resiliência não é apenas essencial para proteger pessoas e ecossistemas, mas também para sustentar nossa economia global e o tecido da cooperação multilateral”.

Brasil apresenta plano com lacunas significativas

Às vésperas da COP30, o Brasil apresentou um inédito mapa do caminho para reduzir emissões e se adaptar às mudanças climáticas, porém sem estimativa clara do custo de implementação. O relatório “Política Climática por Inteiro”, lançado pelo Instituto Talanoa, aponta que qualquer que seja esse valor, ele dificilmente superará o custo estimado para o país caso não enfrente a crise climática, que pode chegar a R$ 17 trilhões em 25 anos em perda do PIB se o aumento da temperatura ultrapassar 4°C em relação aos níveis pré-industriais.

O estudo analisa 41 áreas de políticas públicas relacionadas ao clima e constata que o país avançou no ano passado em 21, avançou pouco em 15, não avançou em três e retrocedeu em duas. O Plano Clima brasileiro apresenta lacunas relevantes, começando pela falta de um sinal claro de transição para longe dos combustíveis fósseis, conforme previsto na declaração final da COP de Dubai. Pelo contrário: o plano projeta aumento até 2035 nas emissões da produção de energia, indústria e transportes.

Estimativas oficiais indicam que as mudanças climáticas já atingiram diretamente mais de 113 milhões de brasileiros na última década, em quase 5 mil municípios, danificando 1,7 milhão de moradias e causando prejuízos superiores a R$ 455 bilhões. Na agenda de adaptação, os recursos do PAC são apontados como fonte importante no curto prazo, porém a maior fatia do eixo Cidades Sustentáveis e Resilientes é destinada ao programa Minha Casa Minha Vida, que não conta com critérios claros de análise de riscos climáticos.

Obras de prevenção de desastres, gestão de resíduos sólidos, esgotamento sanitário e mobilidade urbana recebem apenas R$ 54,8 bilhões entre 2023 e 2026, o equivalente a 18% dos investimentos previstos no mesmo período em petróleo e gás, que contribuem para o agravamento da crise climática.

“Vimos que tanto para reduzir as emissões como para promover a adaptação, não é preciso apenas reforçar investimentos na transição, é urgente alinhar o gasto público ao desafio climático”, afirma Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa.

A maior parte do esforço de mitigação previsto pelo Plano Clima brasileiro está concentrada no combate ao desmatamento e na restauração florestal. O plano prevê uma drástica redução da supressão de vegetação nativa em imóveis rurais, o que permitiria reduzir e capturar 1.084 gigatoneladas de CO2 equivalente na meta mais ambiciosa para 2035.

Virgilio Vianna, superintendente geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), destaca que “investir em resiliência na Amazônia é fundamental para que os guardiões da floresta possam combinar uma trajetória de melhoria da qualidade de vida com a proteção da floresta em pé, unindo metas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas”.

Sem considerar o desmatamento, a agropecuária responde por mais de 30% das emissões brasileiras. Apesar disso, o Plano Clima não inclui qualquer medida para enfrentar a maior fonte de emissões do setor: a fermentação entérica, o processo digestivo do gado. Ela é responsável por 65% dos gases de efeito estufa do setor e quase 20% das emissões totais do Brasil. Volume quase quatro vezes maior do que das emissões de caminhões, ônibus rodoviários e da aviação doméstica juntos.

O Plano Safra da Agricultura Familiar dá destaque maior ao contexto da crise climática, com linhas para apoiar a agroecologia e a adaptação às mudanças climáticas. No grande agro, porém, apenas 1,6% dos recursos totais são destinados à produção mais alinhada aos compromissos climáticos do Brasil.

Não há indicação clara de redução da produção nem do consumo de combustíveis fósseis no Plano Clima. No conjunto de ações sobre energia, o plano projeta um aumento de até 14% das emissões de gases de efeito estufa até 2035. Na geração de energia elétrica, a expectativa é que as fontes renováveis tenham participação menor: enquanto a matriz elétrica brasileira é atualmente 88,2% renovável, as metas do Plano Clima são de 82,7% em 2030 e algo entre 82,7% e 86,1% em 2035.

“Com uma matriz elétrica que recua em percentual de fontes renováveis e uma matriz energética sem indicação clara de abandono gradual dos combustíveis fósseis até 2035, seria possível perguntar: que transição energética é essa?”, questiona o relatório do Talanoa.

COP30 como ponto de virada

Com a Presidência brasileira da COP30 colocando a adaptação e a resiliência no centro das discussões, ao lado da mitigação, a cúpula representa uma oportunidade decisiva para mudar a agenda global de uma postura reativa frente aos desastres para uma abordagem proativa de construção de resiliência.

Carlos Lopes, professor da Universidade da Cidade do Cabo, resume: “Para os mercados emergentes, fechar a lacuna de financiamento para adaptação e resiliência não é uma escolha,é uma questão de sobrevivência. Intervenções em resiliência não são caridade, mas investimentos que fortalecem a autossuficiência e protegem conquistas duramente alcançadas.”

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