
O governo do Irã afirmou nesta semana que os protestos registrados no país desde o fim de dezembro de 2025 foram suprimidos e resultaram em mais de 3 mil mortes, segundo balanço oficial divulgado por autoridades judiciais. De acordo com o regime, o número inclui civis, integrantes das forças de segurança e pessoas classificadas como envolvidas em ações violentas contra o Estado.
Organizações internacionais de direitos humanos contestam a versão oficial e estimam que ao menos 4.500 pessoas tenham sido mortas durante a repressão. As entidades afirmam que o total real pode ser maior, em razão do bloqueio de comunicações, da censura à imprensa e da ausência de acesso independente a registros hospitalares e judiciais.
As manifestações no Irã começaram em meio à deterioração das condições econômicas, com inflação elevada, desemprego e perda do poder de compra, mas rapidamente assumiram caráter político. Protestos se espalharam por diversas cidades, incluindo regiões historicamente alinhadas ao regime, com críticas diretas à liderança clerical e ao sistema instaurado após a Revolução Islâmica de 1979.
Autoridades iranianas sustentam que os protestos não foram espontâneos. Segundo a narrativa oficial, as manifestações teriam sido conduzidas por “terroristas” e “provocadores” apoiados por governos estrangeiros. O procurador-geral Mohammad Jafar Movahedi afirmou que os responsáveis serão responsabilizados judicialmente. “Os provocadores serão julgados e punidos de acordo com todos os procedimentos legais”, declarou.
“Guerrear contra Deus”
Além das mortes, há registro de milhares de prisões. Autoridades indicaram que parte dos detidos poderá ser acusada de “guerrear contra Deus”, crime previsto na lei islâmica iraniana, conhecido como moharebeh, que possui precedentes no sistema judicial do país e pode resultar na pena de morte. Organizações de direitos humanos alertam para o risco de julgamentos acelerados e punições extremas sem garantias plenas de defesa.
A repressão provocou reações internacionais. Países europeus e os Estados Unidos anunciaram novas sanções contra autoridades iranianas, citando violações de direitos humanos. Analistas avaliam que, ao reconhecer oficialmente milhares de mortes, o regime busca demonstrar controle interno e enquadrar a crise como ameaça externa, embora a discrepância entre números oficiais e estimativas independentes mantenha o episódio sob contestação.
Mesmo com a declaração de que os protestos foram contidos, especialistas apontam que as causas estruturais da mobilização permanecem. A combinação de crise econômica, repressão política e isolamento internacional mantém o país sob tensão, com risco de novos episódios de instabilidade.