
O Itaú Unibanco se prepara para iniciar 2026 com uma postura claramente mais agressiva na alocação de recursos. Após um 2025 marcado por decisões táticas e cautelosas, o maior banco privado do país passa a operar em modo “risk on”, elevando o apetite por risco nos portfólios e reposicionando suas carteiras com menos exposição aos Estados Unidos e maior diversificação global.
Em novembro, o banco elevou a alocação em Bolsa brasileira para +1, um nível acima do neutro, após manter uma postura conservadora desde agosto. A mudança foi gradual e simboliza uma recompra de posições que, em momentos anteriores, chegaram a -2, o menor nível de risco local desde 2016. A ação encerra um ciclo mais tático e observacional do banco.
O principal vetor desse otimismo é o cenário de juros. Nos Estados Unidos, o ciclo de queda já começou, estimulando investidores globais a buscar diversificação ao longo de 2025. Para o Itaú, o Brasil deve seguir a mesma trajetória a partir de março de 2026, com a taxa Selic entrando em um processo gradual de redução até atingir a projeção de 12,75% ao ano. Em um ambiente de juros em queda, ativos de risco tendem a ganhar atratividade, especialmente ações.
As novas carteiras recomendadas do banco, que devem ser divulgadas nas próximas semanas, seguem essa lógica de “menos EUA, mais mundo”. No mercado doméstico, a preferência recai sobre ações e títulos indexados à inflação, como as NTN-Bs. No exterior, o Itaú reduz a dependência dos tradicionais Treasuries americanos e amplia espaço para títulos privados de renda fixa na Europa. Entre os emergentes, o banco demonstra especial interesse pela Ásia, com foco em empresas de crescimento e tecnologia.
O banco evita, contudo, atrelar suas decisões a fatores políticos internos. Não há posições montadas em função das eleições nem projeções de alvo para o Ibovespa ao fim de 2026, numa tentativa de reduzir riscos de erro.
Estratégia é global
O pano de fundo dessa estratégia é global. O Itaú sustenta há algum tempo a tese de enfraquecimento estrutural do dólar, o que tende a incentivar investidores a reduzir a concentração histórica no mercado americano. Em 2025, a moeda dos Estados Unidos acumulou queda próxima de 12%, passando de R$ 6,18 no início de janeiro para cerca de R$ 5,44. Embora o banco não espere movimentos tão intensos daqui para frente, avalia que o cenário atual marca o início de um ciclo mais longo de dólar fraco, após anos de valorização que culminaram em máximas históricas em 2024.
A avaliação é que a economia americana deve encerrar 2025 em situação melhor do que o esperado, sem sinais claros de recessão e com empresas entregando resultados sólidos. O dólar, apesar de ter perdido força no segundo semestre, ainda permanece em patamar elevado, reforçando a visão de tendência de queda no longo prazo.
Em paralelo à estratégia de investimentos, o Itaú também promove movimentos relevantes no campo corporativo. O banco anunciou a compra das participações do GPA, da Casas Bahia e do Assaí na Financeira Itaú CBD (FIC), além da aquisição da fatia da Casas Bahia no Investcred. Os valores somam cerca de R$ 786 milhões, considerando as diferentes operações, que ainda dependem de aprovação do Cade e do Banco Central. O Itaú destacou que os clientes continuarão sendo atendidos normalmente até a conclusão das transações.
Outro sinal claro da estratégia de diversificação é o aumento da exposição ao Nubank. No terceiro trimestre, o Itaú adquiriu 3,8 milhões de ações adicionais da fintech, passando a deter 6,7 milhões de papéis, avaliados em US$ 106 milhões. O Nubank já representa 3,6% da carteira de investimentos do banco nos Estados Unidos, consolidando-se como a sexta maior posição da instituição no país.
O movimento reforça uma trajetória mais ampla do Itaú no ecossistema de tecnologia financeira, que inclui desde a histórica participação na XP até o atual reposicionamento em ativos digitais. Em conjunto, as decisões de alocação, aquisições e investimentos indicam que o banco entra em 2026 disposto a assumir mais risco; mas com uma estratégia calibrada, ancorada na leitura do cenário global e na expectativa de um novo ciclo para juros, moedas e mercados.