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A cantora britânica Lily Allen encerrou um hiato de sete anos com o lançamento surpresa de seu quinto álbum de estúdio, “West End Girl”, nesta sexta-feira (24). O trabalho, que chega após a separação do ator David Harbour (“Stranger Things”), é um “diário sonoro” e um “exorcismo pessoal” que transforma a dor do divórcio em pop com letras de uma honestidade brutal.

Gravado em apenas 16 dias no final de 2024, o álbum de 14 faixas é, segundo a própria artista de 40 anos, “o mais vulnerável” de sua carreira. Em comunicado, Allen revelou que o processo de escrita foi uma forma de “processar o que estava acontecendo” durante o colapso de seu casamento, tratando temas como traição, relacionamento aberto, mentiras e a reconquista de si.

Detalhes íntimos da ruptura

Embora a artista afirme que o álbum é uma “mistura de fato e ficção”, sendo apenas “inspirado no que aconteceu no relacionamento”, o trabalho não mede palavras ao expor a degradação do vínculo conjugal. O fio narrativo se inicia com a faixa-título “West End Girl”, onde Lily narra a mudança da família para Nova York e a conquista de um papel em uma peça de teatro em Londres (a cantora estreou em 2:22, peça pela qual foi indicada ao prêmio Laurence Olivier), momento em que as coisas “começaram a mudar” no casamento.

A falta de afeto é rapidamente exposta em “Sleepwalking”, com a linha cortante: “Você não vai me amar, nem vai me deixar. Você não me toca, mas ainda é carente”, indicando que o romance se esgotou após o casamento. A artista aborda a complexidade da não-monogamia em outras faixas, subentendendo que havia um acordo no relacionamento que, no entanto, foi violado. Em uma das letras, ela ironiza a situação ao se rotular a “mamãe não monogâmica” que “só quer entender suas necessidades”.

O álbum se aprofunda nos detalhes da quebra de confiança. Em “4chan Stan”, Lily relata a descoberta de que o homem comprou uma bolsa cara para outra pessoa. Já em “Tennis”, a artista conta que, após ler acidentalmente uma mensagem no celular do marido, começou a suspeitar de um caso com alguém chamado Madeline. A cantora se dirige diretamente à suposta amante, questionando: “Há quanto tempo isso está acontecendo? / É só sexo ou também tem emoção?”.

O momento mais chocante talvez seja em “Pussy Palace”, onde Lily relata ter encontrado fios de cabelo de outras mulheres, brinquedos sexuais e camisinhas em um cômodo da casa de Nova York, o que a leva a perguntar: “Eu estou olhando para um viciado em sexo?”. Em outro momento, ela levanta a suspeita de uma possível gravidez extraconjugal em “Just Enough”: “Você engravidou alguém? / Alguém que não sou eu?”.

Sonoridade e catarse

Produzido em parceria com Blue May, Seb Chew e Kito, “West End Girl” mistura estilos diversos, indo do pop latino ao eletrônico com dancehall e two-step. A crítica especializada notou o contraste entre as melodias “bonitas” e as letras de “narrativa agressiva e detalhista”. O jornal The Independent classificou o trabalho como “uma obra-divórcio como nenhuma outra”.

O processo de criação do álbum foi uma forma de tratamento e reflexão para a cantora, que também aborda a luta para manter-se sóbria, seis anos após abandonar o vício em drogas e álcool. O disco se encerra com a conclusão de que só há dignidade em seguir em frente “colocando toda a verdade na mesa”, mesmo que isso signifique carregar a dor e não mentir para os filhos dizendo que a separação, tornada pública em fevereiro de 2025, foi mútua.

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