
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou sua participação na Cúpula do G20 e no Fórum IBAS, realizados neste fim de semana em Joanesburgo, para defender um papel protagonista das economias emergentes na governança global da inteligência artificial e dos minerais críticos. Em seus discursos, o líder brasileiro traçou conexões entre inovação tecnológica, justiça social e soberania econômica.
Durante a 6ª Cúpula de Líderes do Fórum IBAS, que reúne Índia, Brasil e África do Sul após mais de uma década sem encontros de cúpula, Lula propôs uma rota ambiciosa para o agrupamento. “A condição de grandes emergentes do Sul Global e de grandes democracias confere ao IBAS identidade e aptidões próprias. Compartilhamos muitas causas e temos muito a dizer para o mundo”, afirmou ao lado do primeiro-ministro indiano Narendra Modi e do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa.
O presidente brasileiro sugeriu que o fórum explore ativamente agendas como governança de dados e inteligência artificial, além de dialogar sobre direitos humanos, equidade de gênero, saúde e trabalho decente. “Temos condições de estar na vanguarda da governança global da Inteligência Artificial”, defendeu, destacando a confiança mútua entre os três países para debater temas sensíveis como combate ao extremismo e defesa da democracia.
No painel “Um Futuro Justo e Equitativo para Todos” do G20, realizado no domingo, Lula aprofundou sua crítica ao modelo atual de exploração de recursos naturais. “Os países com grande concentração de reservas de minerais não podem ser vistos como meros fornecedores, enquanto seguem à margem da inovação tecnológica”, declarou. Para o presidente, o que está em jogo não é apenas quem detém os recursos, mas quem controla o conhecimento e o valor agregado derivados deles.
Lula ressaltou a importância de investimentos ambientalmente e socialmente responsáveis que fortaleçam a base industrial e tecnológica dos países detentores de recursos, citando a criação do Conselho Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil. “A soberania não é medida pela quantidade de depósitos naturais, mas pela habilidade de transformar recursos através de políticas que tragam benefícios para a população”, enfatizou.
Ao abordar a inteligência artificial, o presidente reconheceu que a tecnologia é um “caminho sem volta”, mas alertou para os riscos de uma nova forma de exclusão. Lula destacou que 2,6 bilhões de pessoas não têm acesso ao mundo digital e que a taxa de conexão à internet é de 93% em países ricos, mas não chega a 30% nas nações mais pobres. “Quando poucos controlam algoritmos, dados e infraestruturas, a inovação passa a gerar exclusão. É fundamental evitar uma nova forma de colonialismo: o digital”, advertiu.
O presidente pediu urgência para que as maiores economias aprofundem o debate sobre governança da IA, tendo a ONU como centro da discussão, e parabenizou a África do Sul pela “Iniciativa IA para a África”.
Conectando tecnologia e direitos trabalhistas, Lula frisou que 40% dos trabalhadores do mundo estão em funções expostas à IA, sob risco de automação. “A tecnologia deve fortalecer, e não fragilizar direitos humanos e trabalhistas. O trabalho decente deve ser o objetivo das nossas ações”, concluiu, defendendo que cada painel solar, chip e linha de código carregue a marca da inclusão social.