Lula e Macron
Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone nesta terça-feira (27) com o presidente da França, Emmanuel Macron, para tratar da proposta apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criação de um chamado “Conselho da Paz” para mediação de conflitos internacionais. Segundo o governo brasileiro, os dois líderes compartilharam preocupações sobre iniciativas paralelas às estruturas multilaterais existentes e defenderam o fortalecimento de mecanismos já consolidados de diálogo internacional.

A conversa ocorre em um momento de reorganização da política externa norte-americana e de cautela por parte de aliados europeus em relação a propostas que não passam por instâncias como a Organização das Nações Unidas. Tanto Lula quanto Macron têm reiterado, em diferentes ocasiões, a importância de soluções negociadas dentro de fóruns reconhecidos, especialmente diante do aumento de conflitos armados e disputas geopolíticas.

Histórico entre Lula e Macron

O diálogo desta semana dá continuidade a uma relação política marcada por aproximações e distanciamentos ao longo dos últimos anos. Durante os dois primeiros mandatos de Lula, Brasil e França mantiveram cooperação em áreas como defesa, meio ambiente e governança global. Já no período mais recente, especialmente durante o governo Jair Bolsonaro, a relação entre Brasília e Paris foi marcada por tensões públicas, em especial em torno da política ambiental e da proteção da Amazônia.

Com o retorno de Lula ao Palácio do Planalto, em 2023, o diálogo bilateral foi retomado. Desde então, os dois presidentes se encontraram em visitas oficiais e passaram a atuar de forma coordenada em temas como mudanças climáticas, reforma das instituições multilaterais e defesa do multilateralismo. Macron tem sido uma das principais vozes europeias a defender que ajustes na governança global ocorram a partir das instituições existentes, e não por meio de fóruns paralelos.

A proposta de Trump e a posição francesa

A iniciativa de Trump de criar um “Conselho da Paz” foi apresentada como alternativa ao atual sistema internacional, com críticas explícitas ao funcionamento da ONU e, em especial, ao Conselho de Segurança. A proposta prevê um grupo restrito de países para tratar de mediação de conflitos, sem critérios públicos claros de participação ou de legitimidade institucional.

Na França, a reação foi de recusa. O governo francês decidiu não integrar o conselho proposto pelos Estados Unidos, avaliando que o mandato do órgão é amplo demais e pode entrar em conflito com resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Autoridades francesas indicaram que a proposta extrapola o escopo originalmente associado a iniciativas de mediação específicas e levanta questionamentos sobre compatibilidade com a Carta das Nações Unidas.

A posição francesa reflete uma cautela mais ampla no continente europeu. Outros países aliados também demonstraram reservas em relação à iniciativa, ao avaliar que a criação de estruturas paralelas pode fragmentar a governança internacional e enfraquecer mecanismos multilaterais já existentes.

Convergência diplomática entre Lula e Macron

No caso brasileiro, Lula tem defendido uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, com ampliação da representatividade e maior participação de países do Sul Global, mas sem romper com o sistema multilateral. A posição do Planalto é de que soluções duradouras para conflitos armados exigem legitimidade internacional, transparência e participação ampla.

A troca entre Lula e Macron reforça uma convergência diplomática em um cenário de incerteza global. Ambos buscam preservar espaços de coordenação internacional diante de propostas que concentram decisões fora das instâncias tradicionais. Para o governo brasileiro, o diálogo com a França também tem peso estratégico na relação com a União Europeia e em debates sobre segurança internacional, clima e desenvolvimento sustentável.

O contato telefônico não resultou em decisões formais, mas sinaliza que Brasil e França devem seguir alinhando posições em fóruns multilaterais diante das iniciativas apresentadas por Washington. Em um ambiente de mudanças na política externa dos Estados Unidos, a conversa indica a tentativa de manter canais de diálogo e coordenação entre líderes que defendem a centralidade das instituições internacionais.

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