Ricardo Stuckert

Na reta final de uma intensa agenda de compromissos na Indonésia e na Malásia desde a última quarta-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu coletiva de imprensa nesta segunda-feira (27) para traçar um balanço de sua viagem ao leste asiático. Entre visitas oficiais, reuniões bilaterais, acordos comerciais, aberturas de mercados, encontros com empresários, participação inédita na Cúpula de países do leste asiático e título de Doutor Honoris Causa, o líder brasileiro demonstrou otimismo especialmente em relação à reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump, realizada no domingo (26).

“Logo, logo não haverá problema entre EUA e Brasil. O que interessa numa mesa de negociação é o futuro, é o que você vai negociar para frente. A gente não quer confusão, a gente quer negociação. A gente não quer demora, quer resultado”, resumiu Lula, em conversa com jornalistas na Malásia.

O presidente reforçou que questões ideológicas não serão empecilhos para que as tratativas avancem para um desfecho favorável aos dois países. “Fiz questão de dizer ao presidente Trump que o fato de termos posições ideológicas diferentes não impede que dois chefes de Estado tratem a relação com muito respeito. Eu o respeito porque ele foi eleito presidente dos EUA pelo voto democrático do povo americano e ele me respeita porque fui eleito pelo voto democrático do povo brasileiro. Com isso colocado na mesa, tudo fica mais fácil”, ponderou.

Durante o encontro, descrito por Lula como “franco e construtivo”, os líderes discutiram caminhos para a suspensão das tarifas impostas às exportações brasileiras e reforçaram o compromisso de aprofundar o diálogo econômico entre os dois países.

Dados concretos contra argumentos infundados

Lula relatou que entregou a Donald Trump um documento que mostra com clareza o equívoco do argumento de que a balança comercial dos EUA com o Brasil era deficitária. “Fiz questão de dizer a ele que eram infundadas as informações de que os Estados Unidos tinham déficit comercial com o Brasil. Nós provamos que houve superávit de US$410 bilhões em 15 anos. Só no ano passado foram quase US$ 22 bilhões de superávit para os EUA. Em todo o G20 só há três países em que os EUA são superavitários: Brasil, Reino Unido e Austrália”, reforçou.

O presidente explicou que ainda não houve, por parte dos norte-americanos, uma apresentação de potenciais contrapartidas para entrar numa mesa de negociação, mas enfatizou que não existem temas proibidos. “Se ele quiser discutir a questão de minerais críticos, de terras raras, se quiser discutir etanol, açúcar, não tem problema. Eu sou uma metamorfose ambulante na mesa de negociação. Coloque o que quiser que eu estou disposto a discutir todo e qualquer assunto”, declarou.

Na manhã desta segunda-feira na Malásia, como desdobramento do encontro entre Lula e Trump, o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores), acompanhado do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, e do assessor especial da Presidência, embaixador Audo Faleiro, reuniram-se com o representante de comércio dos EUA e com o secretário do Tesouro.

Segundo Rosa, ficou acordado que as equipes dos dois países vão trabalhar para construir um acordo satisfatório para ambas as partes, com um cronograma de reuniões entre os negociadores com foco nos setores mais afetados pelas tarifas. “Hoje estamos num cenário muito mais positivo do que estávamos há alguns dias”, declarou.

Lula também mencionou que a possibilidade de um novo encontro entre ele e Trump não está descartada. “Ele me disse que está com vontade de ir ao Brasil, eu disse que estou à disposição para ir a Washington, porque se tem uma coisa que aprendi a fazer na vida foi negociação. Se houver a disposição do presidente Trump, como ele disse que tem de fazer um bom acordo com o Brasil, temos toda a intenção de fazer um bom acordo, não haverá problema para a relação entre as duas maiores democracias do Ocidente”, afirmou.

Ricardo Stuckert

Lei Magnitsky e STF

Durante o encontro com Trump, Lula também abordou a Lei Magnitsky, utilizada pelos EUA para impor sanções a autoridades estrangeiras. Segundo o presidente, a aplicação em relação a ministros do Supremo Tribunal Federal é “injusta”, uma vez que “respeitou-se o devido processo legal e não houve nenhuma perseguição”.

Após a reunião, a Casa Branca postou uma foto de Lula e Trump na rede X com a seguinte mensagem: “O presidente Trump se encontra com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula da ASEAN. É uma grande honra estar com o presidente brasileiro… Acho que devemos conseguir fechar bons acordos para ambos os países… Sempre tivemos um bom relacionamento — acho que continuará”.

Balanço da viagem

Para Lula, a viagem tem sido uma oportunidade para o Brasil conhecer o que os dois países do leste asiático têm a oferecer para permitir que o fluxo comercial saia do patamar de US$ 6 bilhões anuais para outro nível. “É mais uma viagem exitosa do governo brasileiro ao exterior. Temos um potencial extraordinário em todas as áreas para crescer a relação com a Indonésia, uma relação muito boa construída com o presidente Prabowo Subianto. E eu nunca tinha vindo à Malásia, e o primeiro-ministro Anwar Ibrahim é uma figura extraordinariamente agradável, que gosta do Brasil, que quer ter uma relação forte com o povo brasileiro”, afirmou.

O presidente ressaltou a importância da vinda de mais de 100 empresários brasileiros na comitiva para conhecer potencialidades e abrir caminhos para trocas comerciais. “O presidente não faz negócio, ele abre portas. E a receptividade tem sido extraordinária. Há muita vontade de conhecer o Brasil, de conhecer a transição energética que o Brasil está pensando, essa coisa maravilhosa de um país que tem quase 90% da sua energia elétrica renovável, de um país que tem petróleo e, ao mesmo tempo, defende que vamos trabalhar para que a gente não precise mais usar combustível fóssil”, disse.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, lembrou durante a coletiva que o encontro de Lula com o primeiro-ministro Anwar Ibrahim rompeu um hiato de 30 anos desde que um chefe de Estado brasileiro visitava a Malásia. “E esse foi o terceiro encontro entre o presidente Lula e o primeiro-ministro em menos de um ano, já que ele esteve duas vezes no Brasil recentemente, em novembro de 2024 para a Cúpula do G20 e agora, em 2025, para a Cúpula do BRICS”, destacou.

O chanceler celebrou o apoio público da Malásia ao pleito brasileiro de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e citou a importância estratégica da assinatura de um acordo de cooperação na indústria de semicondutores. “A Malásia é o sexto maior exportador de semicondutores do mundo e indústria responsável por uma verdadeira revolução na sua economia”, afirmou.

Na Malásia, foram firmados sete instrumentos de cooperação, entre eles memorandos de entendimento nas áreas de semicondutores, ciência e tecnologia, inovação tecnológica, pesquisa espacial e agricultura sustentável, além de acordos entre instituições de formação diplomática e centros de pesquisa. Foram abertos seis novos mercados a produtos brasileiros.

Na Reunião Empresarial Brasil-Malásia, os dois países firmaram entendimentos sobre biotecnologia, cultivo de algas, inovação genética e desenvolvimento de sustentabilidade.

Na primeira escala da viagem, na Indonésia, foram firmados oito acordos e parcerias em temas como agricultura e pecuária, ciência e tecnologia e na área de energia e recursos minerais. Além da visita de Estado, Lula participou de um fórum com mais de 100 empresários, entre brasileiros e indonésios.

Reuniões bilaterais com Vietnã e Singapura

No domingo, o presidente Lula encontrou-se com o primeiro-ministro do Vietnã, Pham Minh Chinh, com quem esteve em visita oficial no primeiro semestre. Lula agradeceu os avanços na abertura do mercado vietnamita a produtos brasileiros e reafirmou a intenção de ampliar o fluxo bilateral para US$ 15 bilhões até 2030. Ambos concordaram que a diversificação de parcerias é fundamental para atravessar os atuais desafios no comércio global.

O presidente também se reuniu com o primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong. Os mandatários reafirmaram a disposição em aprofundar a cooperação bilateral em áreas como inovação, economia verde e mineração. Destacaram o compromisso dos dois países com o enfrentamento do aquecimento global e concordaram quanto à importância de uma governança climática mais efetiva.

Lula reforçou que o Brasil mantém a postura de ampliar a rede de comércio exterior do país com o maior número de nações amigas possíveis, numa aposta no livre-comércio e no multilateralismo. “Não temos preferência. Quero continuar tendo uma belíssima relação com a China, com os EUA, com a União Europeia, porque é importante lembrar que, depois de 22 anos, vamos em dezembro fazer o acordo União Europeia e Mercosul. E também estamos fazendo acordo para a Indonésia com o Mercosul, para a Malásia, para a ASEAN. O nosso negócio é fazer negócio”, concluiu.

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