Mercosul
Reprodução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (17) que o Brasil não apoiará mais o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia caso o bloco europeu volte a adiar a votação necessária para viabilizar a assinatura do tratado. A declaração ocorre às vésperas da cúpula do Mercosul, marcada para sábado (20), em Foz do Iguaçu (PR), onde o acordo deveria ser formalizado.

Segundo Lula, o governo brasileiro já fez todas as concessões possíveis ao longo de mais de duas décadas de negociações. O presidente responsabilizou disputas políticas internas em países europeus, especialmente França e Itália, pela dificuldade de aprovação do texto no Conselho Europeu. “Faz 26 anos que a gente espera esse acordo. Se não for agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente”, afirmou.

Lula ainda fez queixas em relação à demora em fechar o trato. “O acordo é mais favorável para eles do que para nós. O [presidente da França, Emmanuel] Macron não quer fazer por causa dos agricultores deles, a Itália não quer fazer, não sei por causa do quê. O dado concreto é que nós, do Brasil e nós, do Mercosul, trabalhamos muito para aceitar esse acordo e passar uma ideia”.

Resistência europeia volta a travar negociação histórica

AA posição do governo brasileiro ocorre após a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, declarar que considera “prematuro” o aval da União Europeia ao tratado neste momento. A manifestação italiana se soma à resistência liderada pela França e já conta com o apoio de países como Polônia e Hungria, formando uma minoria capaz de bloquear a aprovação no bloco europeu.

O acordo entre Mercosul e União Europeia vem sendo negociado há 26 anos e, se firmado, criaria uma das maiores áreas de livre-comércio do mundo, envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas. Neste ano, a parte comercial do tratado foi separada de outros dispositivos para evitar a exigência de ratificação imediata pelos parlamentos nacionais dos 27 países do bloco.

Para o Brasil, o acordo prevê redução ou eliminação de tarifas para produtos agrícolas e industriais exportados ao mercado europeu, além de regras mais previsíveis para investimentos, compras governamentais e comércio de serviços.

Na prática, isso poderia facilitar o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu, ampliar oportunidades para setores como agronegócio e indústria de transformação e estimular investimentos estrangeiros no país. O governo brasileiro também destaca que o texto incorpora compromissos ambientais e trabalhistas, atendendo a exigências feitas pela própria União Europeia ao longo das negociações.

Vantagens para a UE

Mesmo com essas concessões, o Planalto avalia que o atual texto já é mais favorável aos europeus do que ao Mercosul, especialmente em áreas sensíveis para a indústria brasileira. Ainda assim, o governo optou por avançar nas negociações como parte de uma estratégia de inserção internacional e fortalecimento do multilateralismo.

Lula afirmou que seguirá para Foz do Iguaçu aguardando uma resposta clara da União Europeia, mas indicou que um novo adiamento terá impacto direto na postura brasileira nas relações comerciais com o bloco. Para o presidente, manter uma negociação indefinida após anos de concessões enfraquece a credibilidade do processo e do próprio diálogo entre as regiões.

A votação do acordo pode ser analisada pelo Conselho Europeu nesta quinta-feira (18), mas há a possibilidade de o tema ser retirado da pauta para evitar uma rejeição formal. Para o governo brasileiro, essa estratégia apenas prolonga um impasse que se arrasta há mais de duas décadas.

Veja também