
O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta quinta-feira (8) que o país votará contra o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), reforçando a posição histórica de Paris contrária ao tratado e colocando novamente em xeque a possibilidade de ratificação no curto prazo.
Segundo o governo francês, o texto atual do acordo não assegura compromissos ambientais compatíveis com as metas climáticas da União Europeia nem mecanismos eficazes de proteção ao setor agrícola europeu. A avaliação é de que o tratado permitiria a entrada de produtos do Mercosul produzidos sob regras ambientais, sanitárias e trabalhistas consideradas menos rigorosas do que aquelas exigidas dentro do bloco europeu.
Um acordo negociado há mais de duas décadas
As negociações entre Mercosul e União Europeia foram iniciadas em 1999, com o objetivo de criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 780 milhões de pessoas. Após duas décadas de avanços e impasses, o acordo foi concluído politicamente em 2019, mas nunca entrou em vigor.
Desde então, o tratado enfrenta resistências dentro da União Europeia, especialmente em países com forte peso do setor agrícola, que veem riscos de concorrência desleal na abertura de mercado para produtos agropecuários sul-americanos, em especial carnes bovinas, aves, açúcar e etanol.
Pressão do setor agrícola francês
Na França, a oposição ao acordo é fortemente influenciada pela pressão de sindicatos rurais e produtores agrícolas. Entidades do setor argumentam que o tratado comprometeria a renda dos agricultores europeus e enfraqueceria padrões ambientais e sanitários adotados pelo bloco.
O tema ganhou ainda mais centralidade no debate político interno francês em meio a protestos recentes do campo contra políticas agrícolas europeias e acordos comerciais internacionais. O governo Macron tem buscado responder a esse cenário reafirmando a defesa do setor agrícola como prioridade nacional.
Divisões dentro da União Europeia
A posição francesa dificulta o avanço do acordo, já que a ratificação exige apoio qualificado entre os países-membros da União Europeia. Outros países, como Irlanda, Áustria e Bélgica, também já manifestaram reservas, ainda que em diferentes graus.
Por outro lado, Alemanha, Espanha, Portugal e países do Leste Europeu defendem o acordo como estratégico para ampliar o acesso a mercados sul-americanos, diversificar cadeias de suprimentos e reduzir a dependência europeia de outros parceiros comerciais, especialmente em um contexto de tensões geopolíticas globais.
Diplomatas europeus reconhecem que, sem o aval da França, o acordo dificilmente avançará, mesmo com eventuais ajustes ou protocolos adicionais.
Reação no Mercosul
No Mercosul, a declaração de Macron gerou frustração, sobretudo no Brasil. O governo brasileiro sustenta que o acordo inclui compromissos ambientais e mecanismos de cooperação em temas como combate ao desmatamento, desenvolvimento sustentável e respeito a normas internacionais.
Integrantes da diplomacia brasileira avaliam que a resistência francesa tem forte componente político interno e reflete disputas dentro da própria União Europeia sobre política agrícola, ambiental e comercial. Ainda assim, o Brasil mantém a estratégia de diálogo e aposta em negociações complementares para tentar destravar o processo.
Um impasse sem prazo
Com a confirmação de que a França votará contra o acordo, o tratado Mercosul–União Europeia volta a um cenário de indefinição. Não há, neste momento, prazo claro para ratificação nem consenso sobre uma eventual renegociação do texto.
O episódio reforça as dificuldades estruturais do acordo, que há mais de 20 anos oscila entre avanços diplomáticos e bloqueios políticos, refletindo tensões entre abertura comercial, proteção ambiental e interesses agrícolas dentro e fora da União Europeia.