Milei
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Uma nova crise política e técnica sacode o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC) após a confirmação de que a forma como se calculou a inflação nos últimos dois anos reduziu artificialmente o índice de preços ao consumidor, em um movimento que beneficiou eleitoralmente o presidente Javier Milei. A renúncia do diretor do INDEC, Marco Lavagna, foi anunciada nesta segunda-feira (2), depois de o Banco Central de la República Argentina (BCRA) reconhecer que a nova metodologia, se aplicada mais cedo, teria mostrado uma inflação significativamente maior nos últimos períodos e exposto, com mais transparência, a escalada dos preços no país.

Lavagna deixou o cargo oito dias antes da publicação oficial do novo Índice de Preços ao Consumo (IPC), que estava pronto havia meses, mas teria sido adiado para não afetar resultados eleitorais recentes, segundo fontes no governo e no próprio INDEC. A renúncia ocorre em um momento em que o BCRA, órgão que influencia poderosamente a narrativa econômica oficial, admitiu explicitamente que a aplicação do novo IPC teria elevado de forma relevante as taxas de inflação calculadas.

A polêmica não é nova. Argentina já acumulou episódios de controvérsia e censura internacional sobre a manipulação de dados estatísticos. Durante governos anteriores, índices oficiais de inflação e crescimento foram contestados por consultoras independentes e chegaram a ser criticados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que em 2013 censurou o país por falta de precisão e transparência nesses números.

A narrativa oficial de Milei vs. a realidade sentida

Críticos da administração atual afirmam que a estratégia oficial tem sido esconder seletivamente a realidade dos preços para construir um relato alternativo sobre o desempenho econômico. Institutos técnicos ligados ao INDEC relataram nos últimos meses uma sequência de renúncias no órgão, incluindo de diretores de áreas sensíveis como as de pobreza e inflação, que teriam se negado a validar metodologias consideradas “incompatíveis com a realidade”.

Enquanto isso, economistas independentes e institutos privados realizaram cálculos próprios que demonstram uma inflação substancialmente superior às cifras oficiais em diversos itens da cesta de consumo — incluindo alimentos, habitação e transporte —, alimentando o descrédito popular nas estatísticas públicas e fortalecendo a ideia de que os dados oficiais escondem a verdadeira pressão inflacionária sobre os consumidores.

Sequelas de uma confiança abalada

Analistas destacam que a manipulação ou o adiamento de metodologias estatísticas tem um efeito corrosivo sobre a confiança no sistema de dados oficiais no longo prazo. A população, acostumada a ver discrepâncias entre o que sente no cotidiano e o que é divulgado pelo INDEC, já segmentou sua confiança em índices paralelos produzidos por consultorias privadas, tratando os números oficiais com ceticismo sistemático.

O caso argentino revive, em outros cantos do mundo, debates sobre a integridade dos dados oficiais e os riscos de interferência política em estatísticas econômicas, além de reforçar o alerta de que a credibilidade das instituições técnicas é um dos pilares fundamentais para a estabilidade econômica e a tomada de decisões no setor público e privado.

A manipulação de dados atinge em cheio um dos principais cavalos de batalha de Javier Milei: o discurso de ruptura com práticas do passado e de restauração da credibilidade das estatísticas públicas. Ao assumir o poder prometendo “verdade econômica” e transparência radical, o governo agora se vê associado a um expediente que Milei dizia combater.

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