
A direção nacional do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) decidiu cancelar a filiação do ator Dado Dolabella ao partido após forte reação interna, especialmente da ala feminina da legenda. A decisão foi anunciada na segunda-feira (9) e ocorre poucos horas depois de o artista ter sido apresentado como pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro nas eleições de 2026.
A medida foi comunicada em nota assinada pelo presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, e pelo presidente do diretório fluminense da sigla, Washington Reis. No comunicado, o partido afirmou que o cancelamento representa uma resposta à mobilização interna contrária à filiação do ator. “A decisão representa uma vitória de emedebistas, especialmente das mulheres, que haviam se manifestado contrariamente à filiação”, afirmou a direção partidária.
A crise expôs um conflito político dentro da legenda poucos dias após o anúncio da filiação, que havia sido feito na semana anterior com a divulgação de um vídeo ao lado de Washington Reis, no qual Dolabella confirmava a intenção de disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
Reação da ala feminina
A principal resistência veio do MDB Mulher, organização interna do partido que reúne lideranças femininas. A presidente do grupo no Rio de Janeiro, Kátia Lobo, afirmou ter recebido a notícia com “estarrecimento, surpresa e repúdio”.
“Recebi com estarrecimento a notícia da filiação do ator Dado Dolabella — um homem agressor de mulheres, como todo o Brasil o conhece”, escreveu em manifestação pública após o anúncio da pré-candidatura.
A dirigente destacou que a entrada do ator no partido ocorria justamente durante o mês de março, período em que movimentos sociais e instituições costumam intensificar campanhas de combate à violência contra a mulher.
A repercussão levou lideranças internas a pressionar a direção nacional da legenda a rever a decisão. O tema passou a ser discutido dentro da estrutura partidária ao longo dos dias seguintes, até que a filiação foi anulada.
Histórico de condenações
A reação interna ao nome de Dolabella está relacionada ao histórico de episódios envolvendo violência contra mulheres.
O ator já foi condenado por agressão. Em 2010, a Justiça o condenou por lesão corporal em um episódio que envolveu a atriz Luana Piovani e uma funcionária de um hotel. Em outro caso, ele também foi condenado por agressões contra uma ex-namorada, incluindo tapas e socos no rosto, com pena de dois anos e quatro meses de detenção em regime aberto, decisão posteriormente contestada pela defesa.
Esse histórico foi citado por integrantes do MDB e por movimentos sociais que criticaram a possibilidade de o ator disputar um cargo público.
Filiação relâmpago e recuo do partido
A filiação de Dolabella ao MDB havia sido anunciada poucos dias antes da decisão de cancelamento. O ator chegou a apresentar publicamente suas intenções políticas, afirmando que pretendia disputar uma vaga de deputado federal pelo Rio de Janeiro nas eleições de 2026.
Segundo o presidente estadual da sigla, Washington Reis, a filiação ocorreu durante o período de reorganização partidária para as próximas eleições. O dirigente afirmou posteriormente que não tinha conhecimento prévio do histórico de acusações envolvendo o ator.
“Um cara novo, cheio de vontade de fazer política e com nome conhecido na mídia soma bastante”, disse Reis ao comentar o episódio.
A repercussão negativa nas redes sociais e dentro da própria legenda, no entanto, levou o partido a rever rapidamente a decisão.
Reação de Dolabella
Após a divulgação da decisão do MDB, Dolabella publicou um vídeo nas redes sociais confirmando sua saída da legenda. No pronunciamento, ele afirmou que decidiu se afastar após refletir sobre posições defendidas por integrantes do partido.
“Tenho defendido a necessidade de mais equilíbrio nas relações sociais e familiares, com respeito ao devido processo legal e à responsabilidade no debate público. Agradeço ao presidente do MDB no Rio de Janeiro, Washington Reis, pelo convite, pela confiança e pelo respeito durante todo o período de diálogo e convivência”, afirmou o ator.
Debate político e eleitoral
O episódio ocorre em um momento de reorganização dos partidos para as eleições de 2026 e reacende debates sobre critérios de seleção de candidatos e a relação entre partidos políticos e casos de violência de gênero.
Dentro do MDB, a direção tentou enquadrar a decisão como parte da estratégia da legenda de ampliar a participação feminina na política. O partido afirmou em nota que possui em seu estatuto mecanismos para garantir presença de mulheres em diretórios e candidaturas.
Ainda assim, o caso provocou desgaste público para a legenda, que inicialmente havia anunciado o ator como pré-candidato e recuou poucos dias depois diante da pressão interna e da repercussão negativa.
A rápida reversão da filiação também evidenciou o peso crescente de organizações femininas dentro dos partidos políticos brasileiros, capazes de influenciar decisões internas e candidaturas em meio à preparação para a próxima disputa eleitoral.