
Os incêndios florestais que atingem o Chile desde a semana passada deixaram, até o momento, 20 mortos confirmados e mais de 7.200 pessoas diretamente afetadas, segundo balanço atualizado das autoridades chilenas divulgado até a terça-feira (20). Além disso, cerca de 30 mil pessoas precisaram ser evacuadas preventivamente diante do avanço rápido das chamas, sobretudo nas regiões de Valparaíso, Biobío e Ñuble.
As chamas avançaram por áreas urbanas e periurbanas, destruindo casas, redes elétricas e infraestrutura básica. Um dos episódios mais dramáticos ocorreu na população Ríos de Chile, onde 17 pessoas morreram em uma única noite, presas dentro de suas casas após o colapso do fornecimento de energia elétrica, ausência de iluminação pública e dificuldades de evacuação em meio à fumaça densa.
Em Lirquén, no sul do país, equipes de resgate localizaram restos ósseos humanos em um apartamento completamente destruído, reforçando a dimensão da tragédia e a possibilidade de novas vítimas serem confirmadas à medida que áreas antes inacessíveis passam a ser vistoriadas. As autoridades trabalham com cautela na identificação, diante do alto grau de destruição provocado pelo fogo.
O governo chileno decretou estado de emergência em áreas afetadas e mobilizou bombeiros, brigadas florestais e as Forças Armadas. As investigações iniciais indicam que a propagação foi favorecida por temperaturas elevadas, ventos fortes e vegetação extremamente seca, combinação recorrente no verão chileno e agravada por longos períodos de estiagem. Enquanto os esforços de combate aos incêndios continuam, a investigação sobre a origem dos focos também prossegue. Em ofício recente, o ministro do Interior, Álvaro Elizalde, informou que há indícios de incêndios provocados intencionalmente na região de Biobío, informação que ampliou a atenção das autoridades sobre a hipótese de ação humana deliberada.
Incêndios recorrentes e vulnerabilidade urbana

Embora a escala atual seja excepcional, incêndios florestais de grandes proporções não são um fenômeno isolado no Chile. Todos os anos, entre dezembro e março, o país enfrenta temporadas de fogo cada vez mais intensas. Em 2024, um megaincêndio que atingiu a região de Valparaíso foi considerado o mais letal das últimas décadas, com mais de uma centena de mortos, milhares de desabrigados e destruição massiva de bairros inteiros.
Especialistas apontam que os episódios de 2024 e 2026 compartilham fatores estruturais semelhantes, como ondas de calor extremo, estiagem prolongada, expansão urbana desordenada em áreas de interface urbano-florestal e falhas persistentes em políticas de prevenção e ordenamento territorial.
A cobertura da imprensa chilena destaca que o impacto do fogo é desproporcional em comunidades periféricas, onde a ocupação ocorre sem planejamento adequado, com acesso limitado a rotas de evacuação, sistemas de alerta e infraestrutura de emergência. A combinação entre vulnerabilidade social e risco ambiental amplia o número de vítimas e dificulta a resposta do Estado.
2024: 137 mortos e bombeiro acusado de provocar fogo
Os incêndios que devastaram a região de Valparaíso em fevereiro de 2024 — considerados um dos maiores desastres ambientais do Chile nos últimos 30 anos — deixaram 137 mortos e cerca de 16 mil pessoas afetadas, segundo balanço oficial das autoridades.
As investigações levaram à prisão preventiva de um bombeiro voluntário e de um ex-brigadista florestal, acusados de planejar e provocar os incêndios que atingiram as comunas de Viña del Mar, Quilpué e Villa Alemana. O principal acusado foi Francisco Mondaca, bombeiro voluntário de 22 anos, detido após a polícia encontrar bengalas e artefatos incendiários em seu veículo. Segundo o Ministério Público, ele teria atuado em conjunto com Franco Molina, ex-brigadista da Corporação Nacional Florestal (Conaf), apontado como responsável intelectual.
O fiscal especializado em incêndios, Osvaldo Ossandón, afirmou que o fogo teve múltiplos focos simultâneos, distribuídos de forma equidistante, o que reforçou a hipótese de ação deliberada. Em depoimento judicial, Mondaca relatou que as condições climáticas (calor intenso, vento e vegetação seca) foram consideradas favoráveis para iniciar os incêndios e admitiu o uso de artefatos incendiários lançados a partir de um veículo em estradas da região.
O caso causou forte impacto institucional. O comandante do Corpo de Bombeiros de Valparaíso, Vicente Maggiolo, declarou que a corporação ficou “devastada” com as acusações, ressaltando tratar-se de um episódio isolado. Já o diretor da Corporação Nacional Florestal (Conaf), Christian Little, classificou a possível participação de um ex-funcionário como “um golpe doloroso” para a instituição.
Terra, interesses econômicos e politização da emergência
Além das causas climáticas e urbanas, os incêndios reacendem um debate recorrente no Chile sobre uso do solo e interesses econômicos. A legislação chilena protege os bosques nativos, que não podem ser vendidos nem convertidos para outros usos produtivos ou imobiliários. Quando essas áreas são devastadas por incêndios, surgem pressões políticas e econômicas para mudanças no uso do território, abrindo espaço para disputas fundiárias, expansão imobiliária ou substituição por monoculturas florestais de interesse comercial.
Embora, até o momento, não haja conclusão oficial sobre a origem criminosa dos incêndios atuais, autoridades afirmam que todas as hipóteses seguem em investigação, incluindo negligência, ação humana deliberada e falhas de fiscalização.
Em meio à emergência, ferramentas tecnológicas passaram a desempenhar papel relevante. Plataformas digitais com mapas em tempo real baseados em dados de satélite, entre elas um sistema operado pelo Google, passaram a ser usadas pela população para acompanhar a propagação do fogo, identificar focos ativos e planejar deslocamentos, diante da insuficiência de alertas oficiais em algumas regiões.
Paralelamente à tragédia humanitária, o episódio também passou a integrar o debate político. O presidente recém-eleito e ainda não empossado, José Antonio Kast, que assume a cadeira apenas em 11 de março, adotou postura crítica em relação ao governo do presidente Gabriel Boric, atribuindo à atual administração falhas na prevenção e na resposta aos incêndios. Ao mesmo tempo, Kast passou a apresentar publicamente nomes que deverão compor futuros ministérios, movimento interpretado por analistas como tentativa de marcar posição política em meio à crise, enquanto o governo segue concentrado nas ações de emergência e assistência às vítimas.
Os incêndios de 2026 se somam a um histórico recente de tragédias ambientais no país, reacendendo discussões sobre prevenção, ordenamento territorial, fiscalização e resposta estatal diante de eventos extremos cada vez mais frequentes.