O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, na Baviera. A morte foi confirmada pela editora Suhrkamp Verlag, que publicava suas obras.

Nascido em 1929 em Düsseldorf, numa família burguesa e simpatizante do nazismo, Habermas foi membro da Juventude Hitlerista — como a maioria dos jovens alemães da época. O choque com as imagens dos campos de concentração reveladas nos julgamentos de Nuremberg marcou profundamente o adolescente e se tornou ponto de partida para toda a sua trajetória intelectual. “Vimos de repente que havíamos vivido em um sistema político criminoso”, disse décadas depois, em entrevista ao filósofo britânico Peter Dews.

Habermas nasceu com fissura palatina e foi submetido a duas cirurgias na infância, o que lhe causou dificuldade de fala e um temperamento retraído. A experiência pessoal com as barreiras da comunicação é frequentemente apontada como raiz de sua filosofia centrada no diálogo e no entendimento como fundamentos da vida democrática.

Formado em filosofia, economia e literatura alemã, aproximou-se da Escola de Frankfurt por meio de Theodor W. Adorno e se tornou um de seus principais expoentes ao lado de Max Horkheimer. Em sua obra mais influente, Teoria do Agir Comunicativo (1981), formulou uma espécie de guia para a sociedade moderna: os fundamentos de uma democracia se constroem pela linguagem, e só o diálogo racional e livre de coerção pode sustentar a ação social legítima.

A democracia era, segundo seu biógrafo Stefan Müller-Doohm, a “palavra mágica” de seu pensamento. Habermas defendia que o capitalismo precisava ser “domado” por meios democráticos e que a esfera pública — conceito que ajudou a definir — era o espaço essencial para esse enfrentamento. Para o ex-chanceler Joschka Fischer, a insistência do filósofo em que a Alemanha assumisse uma posição clara sobre sua culpa histórica foi decisiva para a formação da cultura de memória do país.

Suas intervenções públicas atravessaram sete décadas: do embate com o historiador Ernst Nolte nos anos 1980, em defesa da singularidade do Holocausto, ao ceticismo diante da reunificação alemã, à defesa da integração europeia e, já nonagenário, ao pedido de negociações com Moscou após a invasão da Ucrânia — posição que lhe rendeu duras críticas. Habermas respondeu que temia que o conflito, em vez de provocar reflexão, tivesse despertado “uma mentalidade de guerra altamente emocionalizada”.

Em sua última visita ao filósofo, no outono de 2023, o biógrafo Philipp Felsch encontrou um homem “muito sombrio”, preocupado com o avanço do militarismo e da ultradireita na Europa. “O que me fascinou foi esse encontro com um pensador ainda muito lúcido, em quem vi a personificação do país em que cresci, mas que já não existia”, relatou Felsch.

Habermas deixa dois filhos, Tilmann e Judith. A filha Rebekka, historiadora da arte, morreu em 2023. Sua esposa, Ute Wesselhoeft, com quem foi casado desde 1955, faleceu no ano passado. A obra do filósofo gerou mais de 14 mil livros e artigos acadêmicos — e, desde 1999, um asteroide leva seu nome. (Com informações da DW e Reuters)

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