
Quase metade das mulheres brasileiras em idade de trabalhar não está empregada nem procurando emprego. Elas simplesmente não aparecem nas estatísticas do mercado de trabalho. O dado, levantado por pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), Isabela Duarte Kelly, revela a dimensão de uma desigualdade que começa antes mesmo da primeira entrevista de emprego e que se aprofunda a cada degrau da carreira.
A taxa de participação feminina no mercado de trabalho — proporção de mulheres empregadas ou em busca de emprego em relação ao total em idade ativa — é significativamente menor que a masculina. E o principal motivo para essa ausência é o trabalho não pago de cuidados e afazeres domésticos, citado por mais de um terço das mulheres fora do mercado. Entre os homens, apenas 3% deram a mesma resposta. São elas que cuidam dos filhos, dos idosos, da casa e esse trabalho invisível tem um custo concreto: a exclusão do mercado formal. As mulheres dedicam quase o dobro do tempo que os homens a essas tarefas semanalmente.
A taxa de participação vinha crescendo até 2019, mas a pandemia de 2020 interrompeu essa trajetória. Seis anos depois, em 2025, o indicador ainda não se recuperou — nem para homens, nem para mulheres.
Dentro do mercado, a desigualdade continua
Para as que conseguem entrar no mercado de trabalho, o cenário não é mais justo. As mulheres estão concentradas em setores de serviços, alimentação, educação, saúde, serviços sociais e domésticos, e, mesmo sendo maioria nessas atividades, recebem salários significativamente menores que os homens. No último trimestre de 2025, a diferença salarial média foi de 21%: as mulheres ganham, em média, R$ 21 a menos para cada R$ 100 que os homens recebem pelo mesmo tipo de trabalho.
Mas esse número médio esconde disparidades ainda maiores quando se olha por setor. Na educação, saúde e serviços sociais — área predominantemente feminina — a diferença salarial chega a 39%. Em outros serviços, é de 37%. No comércio, 27%. Na indústria, 26%.
A situação das mulheres negras é ainda mais grave. Elas recebem, em média, 24% a menos que a média das mulheres e 40% a menos que a média dos homens. Quando ocupam cargos de diretoria ou gerência, as posições mais bem remuneradas do mercado, a diferença em relação aos homens no mesmo cargo permanece em 40%. Isso revela um padrão cruel: quanto maior o salário, maior a desigualdade.
Barreiras na carreira: 8 em cada 10 mulheres relatam obstáculos
Se os dados econômicos já são alarmantes, os relatos das próprias trabalhadoras confirmam o que os números sugerem. Uma pesquisa da Todas Group e da Nexus, realizada com mulheres em cargos de liderança, mostrou que 77% delas já enfrentaram barreiras para crescer na carreira por serem mulheres. Apenas 17% disseram nunca ter passado por nenhum tipo de obstáculo.
A percepção de discriminação cresce conforme a mulher sobe na hierarquia. Entre presidentes, vice-presidentes, sócias e CEOs, 40% relatam ter enfrentado muitas barreiras ao longo da trajetória profissional — contra 31% do total de entrevistadas. Nas áreas de tecnologia da informação e marketing, os índices chegam a 81% e 84%, respectivamente.
Perguntadas se algum homem já dificultou seu crescimento profissional, 63% responderam que sim. Apenas 23% das mulheres sentem que seu trabalho é reconhecido da mesma forma que o dos homens em suas empresas.
O ambiente importa
A pesquisa também revelou uma correlação direta entre equilíbrio de gênero na liderança e clima organizacional. Em empresas com muito mais homens em cargos superiores, quase metade das mulheres (48%) ouve comentários machistas ou piadas preconceituosas com frequência. Nas empresas com equilíbrio entre homens e mulheres na liderança, esse percentual cai para 11%.
“Três em cada quatro mulheres percebem algum grau de desigualdade, seja explícita ou sutil”, afirma Dhafyni Mendes, cofundadora da Todas Group. Para ela, o desafio atual não está apenas no acesso aos cargos, mas na conversão da contribuição feminina em reconhecimento proporcional.
Diante desse cenário, as próprias trabalhadoras apontam o que querem das empresas: programas de aceleração e desenvolvimento (19%), mais mulheres promovidas a cargos estratégicos (17%) e flexibilização da jornada para equilibrar vida profissional e pessoal (16%). Mudanças que, segundo os dados, ainda estão longe de se tornarem realidade para a maioria.