
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma excelente impressão, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, ao abrir a 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York na última terça-feira (23). O discurso, firme e abrangente, consolidou a imagem de estadista comprometido não apenas com os desafios internos do País, mas também com os dilemas globais. A clareza das mensagens, a defesa do multilateralismo e a ênfase em temas urgentes como desigualdade, democracia e mudança climática foram destaques relevantes.
A participação de Lula reforçou o peso diplomático do Brasil, ao mesmo tempo em que projetou o país como interlocutor estratégico em um mundo atravessado por crises múltiplas — da escalada de conflitos armados à emergência climática. O tom adotado foi de chamado coletivo à ação, contrastando com discursos pautados por divisões ideológicas.
Lula reiterou a defesa da democracia e dos direitos humanos, apontando que a pobreza é tão inimiga da paz quanto o extremismo político. Recordou que o combate à fome continua a ser o maior desafio global e sublinhou que “a única guerra de que todos podem sair vencedores é a travada contra a fome e a pobreza”.
Sem citar nomes, o presidente brasileiro fez referências críticas às tentativas de deslegitimar as instituições democráticas no Brasil, em alusão às pressões sofridas pelo Supremo Tribunal Federal e aos ataques de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao afirmar que “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”, Lula deu um recado direto a líderes e movimentos autoritários, reforçando a solidez institucional brasileira.
Outros pontos abordados incluíram a necessidade de rever prioridades globais, com redução de gastos militares e maior investimento em inclusão social, além da defesa de padrões mínimos de tributação internacional para que os super-ricos contribuam mais do que os trabalhadores. Lula também defendeu o fortalecimento da ONU e a reforma do Conselho de Segurança, argumentando que a organização precisa recuperar protagonismo para enfrentar os desafios contemporâneos.
A agenda ambiental e o protagonismo brasileiro
O eixo mais marcante do discurso, porém, foi o ambiental. Lula foi categórico ao afirmar que é hora de transformar compromissos em ação concreta. Ao citar a assinatura do Acordo de Paris e os avanços tímidos desde então, cobrou que as nações apresentem suas metas de redução de emissões até a COP30, marcada para novembro de 2025 em Belém (PA). “Sem o quadro completo das NDCs, caminharemos de olhos vendados para o abismo”, alertou.
Liderando pelo exemplo, o Brasil assumiu o compromisso de cortar entre 59% e 67% de suas emissões até 2035, em relação aos níveis de 2005. Lula também ressaltou a redução de 46% do desmatamento na Amazônia desde 2022 e reafirmou a meta de zerá-lo até 2030.
Mais do que metas nacionais, o presidente propôs a criação de um Conselho Climático vinculado à Assembleia Geral da ONU, com poder de monitorar e cobrar o cumprimento de acordos. O objetivo é trazer a agenda climática para o coração do sistema multilateral, dando-lhe a centralidade que a crise exige.
Entre os anúncios mais relevantes, destacou-se o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo financeiro inovador que busca remunerar países em desenvolvimento pela preservação de suas florestas. Diferente de iniciativas baseadas em doações, o fundo será estruturado como investimento em ativos sustentáveis de longo prazo, com previsão de captar US$ 25 bilhões de governos para alavancar outros US$ 100 bilhões do setor privado.
O projeto pode beneficiar mais de 70 países com cobertura florestal significativa, envolvendo cerca de 1 bilhão de hectares. Ao apresentar o fundo, Lula reforçou que “fomentar o desenvolvimento sustentável é o objetivo” e que não há preservação possível sem garantir dignidade e alternativas econômicas às populações locais.
Diplomacia ativa
Além do discurso, a agenda de Lula em Nova York incluiu encontros multilaterais que reforçam a ideia de diplomacia ativa. O presidente coordenou a 2ª edição do evento Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo, ao lado de líderes como Gabriel Boric (Chile) e Pedro Sánchez (Espanha), reunindo representantes de 30 países. O encontro reforçou a preocupação com desinformação, discurso de ódio e erosão institucional, temas que Lula também vinculou à necessidade de regulação das plataformas digitais em sua fala oficial.
Na frente climática, Lula copresidiu com António Guterres, secretário-geral da ONU, o Evento Especial sobre Clima para Chefes de Estado, destinado a mobilizar países para apresentar novas NDCs antes da COP30. O encontro reforçou a centralidade da questão ambiental na agenda brasileira.
Lula, em seus três mandatos, construiu uma trajetória de aproximação com líderes internacionais. Episódios como o churrasco oferecido a George W. Bush em 2005, na Granja do Torto, ou o famoso elogio de Barack Obama, que o chamou de “o cara” no G20 de 2009, ilustram a habilidade do petista em se posicionar como figura de destaque no cenário internacional. Mesmo com Donald Trump, com quem mantém uma relação conflituosa em razão de tarifas e sanções impostas ao Brasil, Lula conseguiu estabelecer as bases para futuros diálogos.