
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que a relação entre o Congresso Nacional e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou por momentos de “altos e baixos”, mas destacou que divergências fazem parte do desenho institucional do país. As declarações foram feitas durante um café da manhã com jornalistas, nesta sexta-feira (19), em Brasília, encontro em que Motta apresentou um balanço político do ano legislativo e respondeu a críticas internas.
“Não está escrito na Constituição que um Poder tem que concordar com o outro em tudo. Cada Poder tem a sua independência, a sua dinâmica e a sua forma de agir”, afirmou Motta ao comentar votações recentes em que o Congresso se posicionou contra propostas do Executivo.
Divergências como parte do arranjo institucional
Ao ser questionado sobre episódios de tensão ao longo de 2025 — como a derrubada de decretos do governo e embates em torno de medidas econômicas — Motta disse que as discordâncias não representam ruptura, mas exercício das atribuições constitucionais do Legislativo.
“Como em qualquer relação, existem altos e baixos. Isso é natural. O que não se perdeu em nenhum momento foi o respeito institucional”, afirmou. Segundo ele, a Câmara manteve diálogo permanente com o Palácio do Planalto, mesmo em votações sensíveis, e aprovou parte relevante da agenda econômica considerada prioritária pelos líderes partidários.
Motta responde a Arthur Lira
O presidente da Câmara também respondeu a críticas feitas pelo ex-presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), que teria questionado a condução dos trabalhos legislativos após deixar o comando da Câmara. Motta evitou confronto direto, mas disse não concordar com a avaliação e atribuiu as divergências a estilos distintos de liderança.
“Cada presidente tem sua forma de conduzir a Casa. Eu respeito quem me antecedeu, mas sigo um modelo que busca dividir decisões e responsabilidades”, afirmou. Motta destacou que a atual gestão procura reduzir decisões unilaterais e fortalecer o papel do colégio de líderes, especialmente em um cenário de fragmentação partidária.
Presidência compartilhada e colégio de líderes
Motta enfatizou que as decisões da Mesa Diretora são tomadas de forma colegiada, o que, segundo ele, dilui tensões e amplia a corresponsabilidade política. “O posicionamento do presidente da Câmara é construído com o colégio de líderes. Os erros e os acertos não são individuais”, disse.
Essa lógica, segundo interlocutores da Casa, busca responder a críticas recorrentes sobre concentração excessiva de poder na Presidência da Câmara em gestões anteriores, ao mesmo tempo em que enfrenta resistências de parlamentares acostumados a uma condução mais centralizada.
Relação com o Executivo e horizonte eleitoral
Ao olhar para 2026, Motta afirmou que a Câmara continuará exercendo sua autonomia, independentemente do calendário eleitoral. Ele disse esperar que o diálogo com o governo seja preservado, mesmo em um ambiente de maior polarização.
“Discordar faz parte da democracia. O importante é manter os canais abertos e respeitar os limites de cada Poder”, afirmou. Para Motta, o desafio do próximo ano será conciliar a agenda legislativa com as pressões eleitorais, sem paralisar o funcionamento da Casa.
As declarações ocorrem em um contexto de rearranjo político no Congresso, com disputas internas, pressão de bancadas temáticas e expectativa sobre o papel da Câmara em um ano pré-eleitoral. Ao defender a independência do Legislativo, Motta buscou sinalizar que divergências com o Executivo não significam afastamento institucional, mas funcionamento regular do sistema político.