
Uma reportagem do The Intercept, publicada nesta quarta-feira (10), detalhou como um contrato de R$ 108 milhões firmado pela gestão Ricardo Nunes para a expansão de Wi-Fi público em São Paulo se conecta a produtores religiosos que desenvolvem um filme dramatizado sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O contrato analisado foi celebrado pela Secretaria Municipal de Educação para ampliar acesso à internet em áreas periféricas. A execução do serviço, no entanto, envolve uma cadeia de subcontratações que inclui a Dark Horse, empresa atuante no mercado audiovisual cristão e coprodutora do filme sobre Bolsonaro. Embora não tenha sido contratada diretamente pela prefeitura, a Dark Horse aparece vinculada a uma das empresas responsáveis pela operação, o que, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, exige maior rigor de fiscalização sobre repasses, escopo técnico e rastreabilidade dos serviços.
A reportagem destaca ainda a participação da advogada Karina Kufa, ex-tesoureira da campanha de Bolsonaro, que atua como ponte jurídica e institucional em iniciativas associadas à Dark Horse. Segundo o Intercept, Kufa teria intermediado relações entre produtores, empresas tecnológicas e atores políticos, o que amplia o debate sobre possíveis conflitos de interesse e sobre o papel de figuras ligadas ao ex-presidente na articulação de projetos financiados indiretamente pelo poder público.

O filme pró-Bolsonaro, atualmente em produção, envolve influenciadores do ecossistema evangélico e empresas com histórico de atuação no segmento religioso. Parte desses grupos também participa de iniciativas ligadas à execução do contrato municipal. O Intercept cita que algumas empresas da cadeia apresentam estrutura limitada, registros societários recentes ou vínculos cruzados com lideranças religiosas alinhadas ao bolsonarismo, elementos que reforçam dúvidas sobre capacidade técnica e monitoramento.
A denúncia também aponta que a contratação ocorreu em ambiente eleitoral, às vésperas da disputa municipal de 2024. O programa de Wi-Fi, por seu impacto territorial rápido, poderia funcionar como instrumento de visibilidade política, enquanto a produção do filme reforça uma narrativa favorável ao ex-presidente, fortalecendo redes que circulam entre política institucional, mobilização religiosa e audiovisual.
Controle em xeque
Segundo especialistas ouvidos na reportagem, a conexão entre contratos de alta complexidade técnica e atores ligados a projetos ideológicos evidencia vulnerabilidades dos mecanismos de controle. O risco, afirmam, está na possibilidade de que projetos públicos gerem benefícios indiretos a iniciativas privadas com impacto político, especialmente quando executados por empresas com vínculos formais ou informais entre si.
A prefeitura e as empresas citadas negam irregularidades. Mas a exposição do caso amplia a pressão sobre órgãos de controle municipal e federal para esclarecer a cadeia de subcontratações e avaliar a compatibilidade entre os serviços contratados e o perfil das empresas envolvidas.
O episódio reabre discussões sobre governança, transparência e financiamento indireto de projetos culturais com conteúdo político, especialmente em um cenário em que grupos religiosos, atores do audiovisual e estruturas partidárias operam de forma cada vez mais integrada.
