
A criação do chamado Conselho da Paz pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marca um novo e controverso capítulo na já desgastada arquitetura da governança global. Apresentado com pompa no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o órgão nasce oficialmente com o objetivo de supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza, mas rapidamente se projeta como uma estrutura de alcance global e potencialmente concorrente direta da Organização das Nações Unidas (ONU). A proposta, no entanto, diz tanto sobre os conflitos internacionais quanto sobre o próprio Trump: centralizador, personalista e avesso a instituições multilaterais que limitem sua margem de manobra.
Desde o anúncio, diplomatas, analistas e líderes políticos passaram a tratar o Conselho da Paz como uma espécie de “ONU paralela”, desenhada sob medida para concentrar poder nas mãos do presidente americano. Não por acaso, o estatuto preliminar do órgão, revelado por veículos da imprensa internacional, prevê que Trump seja seu presidente vitalício, com autoridade para convidar ou excluir países, criar ou dissolver instâncias internas, vetar decisões e até nomear seu sucessor. Trata-se de um desenho institucional que rompe frontalmente com os princípios básicos da Carta da ONU, fundada na ideia de equilíbrio, representação e limitação do poder unilateral.
A crítica central é que o Conselho da Paz não surge como um esforço de reforma do sistema internacional, mas como sua substituição seletiva. Trump nunca escondeu seu desprezo pela ONU, que costuma acusar de ineficiência, desperdício de recursos e hostilidade aos interesses dos Estados Unidos. Em Davos, voltou a afirmar que “nunca precisou” da organização para encerrar guerras e sugeriu, de forma explícita, que o novo conselho poderia “talvez” substituir a ONU no futuro. A mensagem de Trump é que o problema não é a ausência de uma governança global, mas o fato de ela não estar sob seu controle.
Essa lógica ajuda a explicar a reação imediata de líderes como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para o brasileiro, a proposta representa o “rasgar da Carta da ONU” e a tentativa de criar uma nova organização internacional comandada por um único país; ou, mais especificamente, por um único líder. Lula vê no Conselho da Paz não uma solução para as falhas do multilateralismo, mas sua corrosão definitiva, substituindo o “poder da lei” pela “lei do poder”, como alertou recentemente o secretário-geral da ONU, António Guterres.
A adesão seletiva ao conselho reforça essa leitura. Países como Hungria, Argentina, Israel e alguns aliados árabes aceitaram o convite rapidamente, enquanto França, Noruega, Suécia e Espanha recusaram, citando preocupações com os princípios multilaterais. Rússia, China, Alemanha e Brasil adotaram cautela, avaliando os termos antes de qualquer decisão. O gesto francês foi particularmente simbólico: além de rejeitar o convite, Paris foi alvo imediato de ameaças tarifárias de Trump, que prometeu impor taxas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses. O episódio ilustra como o Conselho da Paz se insere em uma diplomacia coercitiva, em que adesão e punição caminham lado a lado.
Outro elemento que gera desconfiança é o modelo financeiro do órgão. O estatuto prevê a possibilidade de assentos permanentes mediante o pagamento de US$ 1 bilhão, valor que, embora descrito oficialmente como “voluntário”, cria um evidente filtro econômico e político. Mais grave ainda é o fato de que Trump se reservou o direito de administrar esses recursos, levantando dúvidas sobre transparência, governança e conflitos de interesse.
ONU em crise
É inegável que a ONU vive uma crise profunda. O bloqueio recorrente no Conselho de Segurança, a incapacidade de prevenir ou encerrar conflitos prolongados e a perda de protagonismo diante de potências revisionistas corroeram sua autoridade. Nesse sentido, Trump explora um diagnóstico real, mas oferece uma solução que aprofunda o problema. Ao substituir um sistema multilateral imperfeito por um mecanismo unilateral travestido de cooperação, o Conselho da Paz tende a agravar a fragmentação da ordem internacional.
Há também uma dimensão simbólica difícil de ignorar. Para críticos, o projeto carrega a marca da vaidade presidencial e da obsessão de Trump com o Prêmio Nobel da Paz, concedido a Barack Obama em 2009. A promessa de “forjar uma paz bela, duradoura e gloriosa” soa grandiloquente em um contexto em que cessar-fogos recentes, frequentemente atribuídos por Trump a sua atuação direta, já começaram a ruir. Mesmo quando sua mediação produziu resultados pontuais, como a trégua temporária em Gaza ou o fim da guerra de 12 dias entre Irã e Israel, esses acordos permanecem frágeis e dependentes de pressão contínua.
A ironia é que, ao tensionar o sistema, Trump pode acabar recolocando na agenda internacional um debate há muito adiado: a necessidade de reformar profundamente a ONU para que ela volte a refletir o equilíbrio real de poder do século XXI. Resta saber se essa discussão resultará em mais cooperação ou em uma fragmentação ainda maior. Por ora, o Conselho da Paz parece menos um instrumento de pacificação global e mais um espelho da geopolítica trumpista.