
A percepção de que o imposto pesa mais para quem vive de salário tem base concreta nos números. Um estudo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco Nacional), elaborado a partir de declarações do Imposto de Renda da Pessoa Física e estatísticas oficiais, mostra que o sistema de impostos brasileiro cobra mais de trabalhadores e consumidores e menos de pessoas muito ricas, que concentram renda em lucros, investimentos e heranças.
Os dados indicam que, conforme a renda aumenta, o percentual efetivamente pago em impostos não acompanha esse crescimento. Entre os contribuintes que estão no topo da renda, a fatia do dinheiro destinada ao pagamento de impostos diminui, apesar do aumento do valor absoluto recebido.
Como o sistema passou a tratar ricos e trabalhadores de forma diferente
Essa diferença não surgiu por acaso. Até meados dos anos 1990, lucros e dividendos distribuídos por empresas eram tributados. Em 1996, uma mudança na legislação isentou esse tipo de rendimento do Imposto de Renda. Desde então, quem recebe salário continua pagando imposto mensalmente, enquanto quem recebe grandes volumes de renda por meio de empresas e investimentos passou a contribuir menos proporcionalmente.
Hoje, salários, aposentadorias e pensões seguem uma tabela progressiva, com desconto direto na fonte e alíquotas que chegam a 27,5%. Já rendas comuns entre milionários — como lucros empresariais, ganhos financeiros e parte das heranças — têm tributação reduzida ou inexistente.
Segundo o estudo, pessoas com renda mensal superior a R$ 1 milhão pagam, na prática, uma alíquota média próxima de 7% sobre tudo o que recebem.
O que significa pagar menos imposto “na prática”
Quando o estudo fala em imposto efetivamente pago, não se trata da alíquota prevista em lei, mas da parcela real da renda que sai do bolso do contribuinte ao final do ano. É nesse ponto que aparece a distorção.
Um trabalhador que recebe R$ 10 mil por mês tem imposto descontado automaticamente, além de pagar tributos embutidos em tudo o que consome. Já um empresário ou herdeiro que recebe milhões por meio de lucros ou investimentos consegue pagar menos porque boa parte dessa renda não passa pela tabela do Imposto de Renda.
Na prática, o sistema cobra mais de quem tem renda previsível e menos de quem tem renda concentrada em patrimônio.
A concentração de renda no topo
Os números analisados pela Unafisco mostram que o 1% mais rico da população concentra cerca de 27% de toda a renda declarada no Brasil. Dentro desse grupo, o 0,1% concentra aproximadamente 14%.
Mesmo com essa concentração, a participação desses grupos na arrecadação do Imposto de Renda é menor do que sua participação na renda total. Isso significa que a progressividade do imposto funciona apenas até certo ponto da renda e deixa de atuar justamente entre os mais ricos.
O papel do imposto embutido no consumo
Além do Imposto de Renda, há outro fator central para entender quem paga mais imposto no Brasil: os tributos embutidos no preço de bens e serviços. Energia elétrica, gás, alimentos, transporte, medicamentos e serviços básicos carregam impostos pagos igualmente por todos.
Mais de 45% da arrecadação tributária brasileira vem desse tipo de cobrança. Para famílias que vivem com até dois salários mínimos, esses impostos consomem mais da metade da renda mensal. Para famílias muito ricas, o impacto é menor, porque o consumo representa uma parcela reduzida do total recebido.
Esse modelo faz com que o sistema cobre mais, proporcionalmente, de quem tem menos renda disponível.
Quanto o país deixa de arrecadar com esse desenho
O estudo estima que a volta da cobrança de imposto sobre lucros e dividendos, mesmo com alíquotas moderadas, poderia gerar mais de R$ 60 bilhões por ano em arrecadação.
Segundo a Unafisco, esse valor poderia ser usado para aliviar a carga sobre salários, ampliar investimentos em serviços públicos ou reduzir desigualdades, sem aumentar o total de impostos pagos pela sociedade.
O que está em debate no Congresso
As conclusões do estudo aparecem em meio à discussão sobre mudanças no sistema de impostos no Congresso Nacional. Entre as propostas estão a tributação de lucros e dividendos, ajustes na tabela do Imposto de Renda e regras mais claras para a cobrança sobre grandes heranças.
Para os auditores fiscais, o ponto central do debate não é apenas arrecadar mais, mas reorganizar quem paga. Sem mudanças na forma de tributar milionários e grandes heranças, o estudo indica que o peso dos impostos continuará concentrado sobre trabalhadores e consumidores.