Tarsila
Reprodução/Instagram

Uma obra da artista plástica brasileira Tarsila do Amaral voltou ao centro do noticiário após ser identificada no chão da casa do banqueiro Roberto Setúbal, herdeiro da família fundadora do Itaú e ex-presidente do conselho de administração do banco, em São Paulo. A pintura aparece apoiada contra a parede, sem moldura ou proteção museológica, em uma imagem que passou a circular fora do circuito formal do mercado de arte e gerou questionamentos sobre sua guarda e conservação.

Avaliada em centenas de milhões de reais em disputas judiciais, a obra integra um acervo que está sob litígio e sujeito a restrições impostas pela Justiça. O fato de uma peça desse porte surgir em ambiente doméstico reacendeu o debate sobre os limites da posse privada quando se trata de bens considerados centrais para a história cultural brasileira.

A presença da obra na residência de Setúbal está ligada a uma disputa patrimonial em curso. Roberto Setúbal e a influenciadora Daniela Fagundes se separaram em dezembro de 2024, e a partilha de bens passou a ser discutida judicialmente. No andamento do processo, tornou-se necessário identificar e localizar bens de alto valor, incluindo obras de arte, o que trouxe a pintura de Tarsila novamente ao centro do litígio.

Caso foi revelado em meio a litígio

O caso veio a público quase sem intenção. A imagem da obra surgiu a partir de registros apresentados no próprio processo judicial, acabou circulando fora do ambiente restrito dos autos e chegou a jornalistas.A fotografia veio à tona como um efeito colateral do conflito patrimonial, o que contribuiu para a repercussão.

O impacto da imagem está menos na redescoberta da obra e mais na cena registrada. Uma pintura associada ao núcleo mais valorizado da produção de Tarsila aparece fora de qualquer contexto museológico, apoiada no chão de uma residência, o que contraria padrões mínimos de conservação e acendeu alertas sobre quem responde pela guarda da peça enquanto a disputa não é resolvida.

Tarsila
Roberto Setúbal e Daniela Fagundes se separaram em dezembro de 2024 – Redes sociais/Reprodução

Expoente do Modernismo

A repercussão foi amplificada pelo peso simbólico da artista. Tarsila do Amaral é um dos nomes centrais do modernismo brasileiro, responsável por obras que ajudaram a redefinir a arte nacional no século 20 e ganharam projeção internacional. Seus trabalhos integram acervos de instituições como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), o MASP, além de museus e coleções na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos.

Peças produzidas a partir do fim da década de 1920, período ao qual a obra em questão é associada, figuram entre as mais valorizadas da arte brasileira e costumam ser tratadas como patrimônio cultural, mesmo quando pertencem a coleções privadas. Por isso, episódios envolvendo sua circulação, guarda ou eventual negociação extrapolam o interesse do mercado.

Especialistas do setor avaliam que o caso expõe fragilidades recorrentes na gestão de grandes coleções privadas no Brasil, especialmente quando envolvem separações, heranças e disputas prolongadas. Nessas situações, obras de alto valor histórico podem acabar circulando fora de ambientes controlados, abrindo margem para conflitos judiciais, questionamentos institucionais e desgaste público.

Até o momento, não há indicação de que a obra tenha sofrido danos. O processo judicial segue em curso e deverá definir a titularidade definitiva da pintura, as condições de guarda e eventuais restrições futuras quanto à sua circulação, exposição ou negociação.

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