Reprodução/Redes Sociais

A Operação Poço de Lobato, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal na última semana, revelou conexões entre o grupo empresarial Refit e o Movimento Brasil Livre (MBL) que vão além da presença de um dirigente entre os investigados. Cristiano Moreira Pinto Beraldo, ex-comentarista da Jovem Pan e membro ativo do MBL até a data da operação, é apontado como peça-chave no esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro que movimentou R$ 70 bilhões apenas em 2024.

A megaoperação desarticulou um esquema bilionário supostamente comandado pela Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, considerada a maior sonegadora de impostos do país. Segundo as investigações, a empresa teria utilizado laranjas e estruturas societárias complexas para ocultar beneficiários e patrimônio, incluindo a abertura de fundos de investimentos nos EUA.

Beraldo é investigado por manter diversas empresas offshores em Delaware, estado americano considerado paraíso fiscal, para sonegar bilhões do grupo Refit. Ele também gerencia uma empresa no mesmo endereço que a esposa de Ricardo Magro, dono da Refit, em Miami, onde ambos vivem. As investigações o apontam como responsável pelo uso dessas estruturas offshore em paraísos fiscais para movimentar recursos ligados ao empresário.

Conexões profundas

O desligamento de Beraldo do MBL foi imediato. Ao saber que era alvo da operação, o empresário comunicou seu afastamento temporário do movimento. Arthur do Val, porta-voz do grupo e ex-deputado estadual conhecido como “MamãeFalei”, disse confiar “plenamente na inocência” do colega e afirmou que o desligamento partiu do próprio Beraldo, que “tomou a atitude mais acertada possível”.

As conexões, no entanto, não se limitam à presença de um dirigente entre os investigados. Registros públicos e participações recentes em eventos patrocinados pela Refit indicam uma aproximação mais ampla entre integrantes do MBL e a empresa, ainda que o grupo descarte qualquer relação institucional.

Integrantes do MBL participaram da festa de 70 anos da Refit, realizada em dezembro de 2024. Em registros publicados no Instagram, ainda disponíveis no perfil da vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), aparecem líderes do movimento reunidos, incluindo o deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil), Renan Santos, futuro candidato à presidência do Partido Missão, o deputado estadual Guto Zacarias (União Brasil) e o próprio Arthur do Val.

No carnaval de 2025, Renan Santos, Kataguiri, Do Val e pelo menos mais quatro integrantes do MBL foram convidados para o Camarote Rio, patrocinado pela Refit. Em maio deste ano, o fórum “Brazil Insights”, realizado nos Estados Unidos para discutir oportunidades e desafios do Brasil, também contou com patrocínio da refinaria e reuniu alguns dos principais nomes do MBL, entre eles Vettorazzo, Do Val, Renan Santos e Guto Zacarias.

Arthur do Val recusa qualquer associação institucional. “Não há relação nenhuma do MBL com a Refit, o que se vê é a gente indo em um monte de evento, de um monte de gente, que patrocina um monte de coisa”, afirmou.

O caso ganha contornos mais delicados quando envolve o recém-criado Partido Missão, oficializado pelo MBL em novembro deste ano. Beraldo estava entre os maiores doadores da nova sigla. Em uma live sobre o Missão, Arthur do Val revelou: “Eu e o Cristiano Beraldo somos os maiores doadores do Missão”.

A revelação coloca em xeque a tentativa do MBL de se reinventar institucionalmente através do novo partido, que tem Renan Santos projetado como futuro candidato à presidência. Com Beraldo no centro de investigações por sonegação bilionária justamente quando o movimento busca legitimidade eleitoral, o Missão enfrenta seu primeiro teste de credibilidade antes mesmo de disputar eleições.

Do Val minimiza o impacto, alegando que as contribuições foram feitas pela pessoa física de Beraldo, não por suas empresas. “Todas as pessoas físicas que doam para um partido podem ter os seus CNPJs e ter uma vida, sendo uma pessoa jurídica ativa em outra atividade. Isso é super normal”, argumentou. Questionado se o caso atrapalharia o lançamento da legenda, ele foi categórico: “Não atrapalha de alguma forma”.

Beraldo se aproximou do MBL em 2022 e chegou a ser cotado para disputar as eleições presidenciais pelo Missão. Formado em administração, ele gerenciou empresas nos setores de petróleo e tecnologia e era CEO da J.Global Energy Inc., empresa americana parceira da Refit. Após a operação, publicou um vídeo em que se disse “surpreso” e anunciou o desligamento da Jovem Pan e da “militância política” para se dedicar a responder às autoridades.

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