
A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro resultou em pelo menos 119 mortes nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte da cidade. Na madrugada desta quarta-feira (29), moradores do Complexo da Penha levaram pelo menos 64 corpos para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais da região. Os cadáveres, segundo relatos, foram encontrados em área de mata entre as duas comunidades e não constavam no balanço oficial divulgado pelo governo estadual.
O último balanço oficial, divulgado na terça-feira (28), registrava 64 mortes; 60 suspeitos e quatro policiais civis e militares. Com os corpos encontrados pelos moradores, o número oficial de vítimas é 119, de acordo com a Polícia Civil, passando o total de vítimas do massacre do Carandiru, em São Paulo, que deixou 111 presos mortos, em 2 de outubro de 1992.
Marcas de violência
Testemunhas afirmam que muitos dos corpos apresentam feridas a bala, perfurações por faca nas costas e ferimentos nas pernas. Alguns estavam com o rosto desfigurado. Enfileirados no centro da praça, os mortos foram cercados por familiares e amigos que tentavam fazer o reconhecimento diante da ausência de informações oficiais.
Mais cedo, moradores chegaram a transportar seis corpos em uma Kombi até o Hospital Estadual Getúlio Vargas. O veículo chegou em alta velocidade e deixou o local rapidamente.
A Polícia Civil informou que o atendimento às famílias para o reconhecimento oficial ocorrerá no prédio do Detran localizado ao lado do Instituto Médico-Legal (IML) do Centro do Rio, a partir das 8h. Nesse período, o acesso ao IML será restrito à Polícia Civil e ao Ministério Público, que realizam os exames necessários. As demais necropsias, sem relação com a operação, serão feitas no IML de Niterói.
Operação de guerra
A ação policial, chamada Operação Contenção, mobilizou 2,5 mil policiais civis e militares com o objetivo de conter avanços territoriais do Comando Vermelho (CV). O último balanço registrou 81 suspeitos presos, mais de 90 armas apreendidas — incluindo fuzis de guerra — além de rádios comunicadores e 200 quilos de drogas recolhidos.
O confronto nas comunidades expôs escalada inédita de poder bélico da facção, que reagiu com drones adaptados para lançar explosivos, bloqueios, incêndios e tiros contra as equipes da Core, tropa de elite da Polícia Civil. Policiais afirmaram que os criminosos passaram a monitorar o deslocamento das equipes por via aérea, atacando pontos estratégicos e desorganizando o cerco preparado pelo Estado.
Em retaliação à megaoperação, criminosos interditaram 35 vias em diversos pontos do Rio e da Região Metropolitana. Veículos foram atravessados, latões de lixo, barricadas e pilhas de materiais foram incendiados. Foram 12 horas de bloqueios que paralisaram a cidade.
Mais de 200 linhas de ônibus tiveram seus itinerários interrompidos e alterados. Além disso, 71 coletivos foram usados pelos criminosos como barricadas. No trem e no metrô, a alta demanda de passageiros que voltou para casa de forma antecipada no meio da tarde causou superlotação nas estações e composições.
O Centro de Operações e Resiliência (COR) da prefeitura havia acionado o estágio 2 às 13h48 de terça-feira, por causa das interdições em diversas ruas e dos problemas nos modais de transporte. Durante a madrugada, todas as ruas que ainda estavam bloqueadas por barricadas foram liberadas. A última foi a autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, que liga os bairros das zonas norte e oeste, passando pelo Complexo de Favelas do Lins, às 2h45.
Às 6h desta quarta, o COR anunciou que a cidade retornou ao estágio 1, o menor em uma escala de cinco, que “significa que não há ocorrências de grande impacto”. Os transportes voltaram a funcionar sem problemas.





Transferência de lideranças
Como resposta aos bloqueios, dez criminosos da cúpula do Comando Vermelho, que estavam presos em Bangu 3, foram transferidos na noite de terça-feira para Bangu 1, a penitenciária de segurança máxima do estado. A transferência tem caráter provisório.
O governo estadual solicitou, e o governo federal acatou no início da noite de terça-feira, o pedido de transferência de dez criminosos detidos no sistema penitenciário do Rio para presídios federais. Segundo o governo, eles são apontados como responsáveis por comandar, de dentro das cadeias, a retaliação de criminosos à megaoperação.
Embate político
A ação provocou embate entre o governo estadual e a União. O governador Cláudio Castro (PL) afirmou que o Rio “está sozinho” na luta contra o crime organizado e disse ter tido pedidos negados para uso de blindados do Exército.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública rebateu Castro, afirmando que todos os pedidos oficiais foram atendidos e que há operações federais em andamento, além de recursos disponíveis para reforço da segurança pública no estado.