A hermenêutica da IA na sociedade

A ascensão da inteligência artificial inaugura uma nova hermenêutica na contemporaneidade. Não se trata apenas de uma inovação tecnológica, mas de uma transformação na forma como produzimos, organizamos e interpretamos sentido. No campo do jornalismo — já atravessado por precarização estrutural, enxugamento de redações e esvaziamento do investimento em reportagem — essa inflexão tecnológica adquire contornos ainda mais delicados.

É inegável que o jornalismo vive um momento de fragilidade. Basta percorrer as homepages dos grandes veículos: proliferam colunas opinativas, textos baseados quase exclusivamente em declarações de fontes, análises que raramente buscam contrapontos robustos. A reportagem, enquanto prática investigativa e estruturante do jornalismo como ciência social aplicada, perdeu centralidade. O jornalista tornou-se multitarefa há pelo menos duas décadas — escreve, grava, edita, posta, interage. Nesse contexto, a inteligência artificial surge como promessa de ganho de produtividade. Mas também como potencial catalisadora de distorções.

O debate ganhou novo fôlego neste mês de fevereiro, quando a colunista da Folha de S.Paulo, Natália Beauty, admitiu utilizar inteligência artificial para estruturar seus textos. A revelação ocorreu após questionamento de um leitor que suspeitava do uso da ferramenta. Beauty esclareceu que não delega à IA a criação do conteúdo do zero: ela dita suas ideias, seus argumentos, seu fluxo de pensamento, e utiliza o sistema para organizar e estruturar esse material. Em sua descrição, a ferramenta atua como recurso acessório; uma organizadora de raciocínio.

A reação foi imediata. Parte do público manifestou perplexidade; outros enxergaram naturalidade e até pertinência na prática. A ombudsman da Folha, Alexandra Moraes, foi instada a se posicionar. O jornal já dispõe, desde 2023, de diretrizes preliminares sobre o uso de IA, estabelecendo responsabilidade integral do jornalista pelo conteúdo publicado, exigência de revisão e manutenção dos protocolos clássicos de checagem e apuração. Em outras palavras, a ferramenta não altera o núcleo do fazer jornalístico: verificar, confrontar, contextualizar.

A divergência central, no entanto, não é técnica — é epistemológica. Alguns colunistas do próprio jornal argumentaram que a escrita não é mero registro de pensamento prévio, mas espaço de metamorfose intelectual. Ao escrever, o autor reorganiza ideias, descobre conexões imprevistas, reformula hipóteses. Delegar a estruturação textual à IA poderia empobrecer essa dinâmica. O argumento é consistente: escrever é pensar.

Por outro lado, a utilização de ferramentas para organizar pensamento não é novidade. O ghostwriter existe há décadas; softwares como o Word oferecem recursos de ditado e organização automática. A IA, nesse sentido, poderia ser vista como um ghostwriter algorítmico — sem que isso implique necessariamente erosão cognitiva. A questão, portanto, não é a existência da ferramenta, mas o modo de usar.

Um estudo recente da Universidade de Harvard alerta que o uso excessivo de sistemas automatizados pode reduzir engajamento cognitivo, especialmente entre gerações que já crescem sob a sombra da inteligência artificial. O risco está em tornar-se reativo: deixar de prospectar dados, formular hipóteses, estruturar argumentos de maneira ativa. Essa preocupação é legítima. Mas aplicá-la indiscriminadamente a todo uso de IA pode ser reducionista. Utilizar a ferramenta como suporte organizacional não equivale a abdicar da autoria intelectual.

O caso Beauty expõe algo maior do que uma prática individual. Ele revela o conflito íntimo e social sobre como integrar a inteligência artificial ao cotidiano profissional. Devemos usá-la? Se sim, em que medida? E, sobretudo, devemos publicizar esse uso? A transparência parece ser um caminho prudente, especialmente no jornalismo, cuja credibilidade depende da confiança pública.

A inteligência artificial já ocupa espaço incontornável na vida social. No jornalismo, ela pode ampliar produtividade, auxiliar na organização de dados, acelerar tarefas operacionais. Mas não substitui o juízo crítico, a responsabilidade ética nem a busca por contraponto — justamente os elementos que hoje se encontram enfraquecidos.

O debate está apenas começando, mas já se mostra dominante. Talvez a questão não seja resistir à IA, mas discipliná-la culturalmente. Incorporá-la sem abdicar da densidade intelectual. Usá-la como ferramenta, não como substituta. E, sobretudo, manter vivo o exercício reflexivo — individual e coletivo — que sustenta o jornalismo como prática democrática.

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