“Você é uma pessoa insuportável”. Se Donald Trump estivesse vociferando diante do espelho, é quase certo que metade da população do planeta só veria verdade nas palavras. Seria apenas uma espécie de autoelogio e reconhecimento por sua polêmica biografia. Mas ele não estava. Ele escolheu as palavras, cirurgicamente, para responder à jornalista Rachel Scott, da TV americana ABC, durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca, em mais um episódio de ataque ao jornalismo e, em especial, a repórteres mulheres.
– Você é a repórter mais insuportável de todo o lugar. Deixa eu te dizer uma coisa: você é uma pessoa insuportável. Uma péssima repórter, aliás. Realmente péssima. E com você é sempre a mesma coisa.
Toda a fúria misógina eclodiu ao ser questionado se ele orientaria o secretário de Defesa dos Estados Unidos a divulgar mais vídeos de forças militares atirando em barcos apontados como de narcotraficantes da Venezuela. Mas Trump não parou por aí e, mais adiante, o alvo foi outra jornalista, que havia perguntado sobre o número de parlamentares republicanos que pensam em se aposentar nas próximas eleições.
– Quantos democratas estão se aposentando? Como você só sabe sobre os republicanos e não fala dos democratas? Você está despreparada. Totalmente despreparada – atacou, depois de interrompê-la diversas vezes.
Os ataques à imprensa têm se tornado mais frequentes no segundo mandato do republicano, marcado por uma administração mais extremista e beligerante. Mera coincidência? Certamente, não. Vale lembrar outros casos. Em novembro, Trump perguntou, em tom agressivo, a outra repórter: “Você é idiota?”. Em setembro, ele já havia mandado outra jornalista mulher a ficar quieta, seguindo mais um ataque: “Silêncio. Você é muito irritante. Eu não vou falar com você até eu citar você”.
Mas qual a razão de o presidente dos Estados Unidos agredir verbalmente os jornalistas que cobrem a Casa Branca?
Não há um motivo isolado. Na prática, a postura em relação à imprensa é uma extensão de sua estratégia política com propósitos bem claros – e que vão das eleições para o Capitólio no ano que vem à queda-de-braço contra a China na geopolítica global.
A questão central é que Trump faz tudo isso partindo de uma premissa que é comum a outros expoentes da extrema direita no mundo. Algo que ele também fazia em seu primeiro mandato. A lógica dele e dos demais é simples. Os ataques são necessários para consolidar suas narrativas e visões de mundo, colaborando para demarcar o ambiente polarizado. Ao xingar e desqualificar uma repórter, ele busca colocar em xeque a credibilidade e a reputação das grifes da imprensa norte-americana e o jornalismo em si como fontes de informações seguras.

A mídia foi eleita como inimiga do povo e, por tabela, de seu projeto de fazer a “América grande de novo”. Trata-se da velha receita da polarização “nós x eles”, que já dura alguns anos. Em 2018, ainda no primeiro mandato, Trump mandou o repórter Jim Acosta, da CNN, “calar a boca” e proferiu uma série de acusações contra ele e à emissora, dizendo que a CNN só “espalhava fake news”.
Embora choquem metade do planeta e virem manchetes mundo afora, as ofensivas contra repórteres e o papel do jornalismo na sociedade sãos recados diretos para o público trumpista. É com seus eleitores e seus simpatizantes que ele está falando, numa linha direta, sem intermediários. “Não confiem neles.” “Eles agem contra o interesse dos Estados Unidos.” “Eles fazem fake news.” “Eles censuram o que é verdadeiro”. E, também, apontam o outro lado da moeda, trazendo a solução e a sua verdade: “Eu defendo a liberdade de expressão e não precisamos deles para saber a verdade.” “Pelas redes sociais, temos um canal direto, sem a intermediação daqueles que querem nos boicotar”.
Os ataques, portanto, servem para manter a coesão da tropa, e são suficientemente polêmicos e verborrágicos para assegurar que os algoritmos das redes sociais ampliem o alcance de sua mensagem. A linha direta do trumpismo conta com o aval das big techs, que ganham muito dinheiro promovendo polêmicas e dividem a mesma visão de mundo do chefe da Casa Branca.
É importante notar que os temas que geram as agressões verbais são estruturantes para sua posição política na atualidade. Eles não são aleatórios. Os casos desta semana são exemplares. A repórter taxada como “insuportável” o questionava sobre a iminente ação de atacar a Venezuela e o narcoterrorismo, o seu novo neologismo para justificar invasões e guerras. Sabemos que a ofensiva contra o regime de Nicolas Maduro está intimamente relacionada à ascendência dos Estados Unidos na América Latina como um todo. A Venezuela é só a primeira peça do tabuleiro. Mandar em seu quintal, como costumam pensar os norte-americanos, é fundamental quando o mundo reavalia o hegemonismo do país, seja econômico ou militar.
Já a “repórter despreparada” cutucava o calcanhar de Aquiles dele dentro dos Estados Unidos. As recentes vitórias democratas, como a eleição de Zhoran Mamdani, em Nova York, acenderam o sinal de alerta para os republicanos no pleito do ano que vem. Se perder maioria no Capitólio, Donald Trump terá mais dificuldades nos dois últimos anos de mandato. Seria o fim do seu cheque em branco. Não à toa, o trecho da coletiva, desqualificando a jornalista, foi postado pelas redes oficiais da Casa Branca como exemplo de uma fake news desmascarada por Trump, o herói da verdade.

É preciso, por fim, fazer uma ressalva. Não devemos colocar os conglomerados de mídia – como CNN, ABC, NBC, entre outros – como vítimas do maior líder da extrema direita no mundo. Todos têm linhas editoriais e carregam suas visões de mundo na cobertura jornalística. Isto vale para os Estados Unidos, para o Brasil e para qualquer outro país. Em muitos momentos da história contemporânea, cumpriram o papel de favorecer um lado ou outro em disputas políticas acirradas e são, comumente, também criticados pelo campo da esquerda, como acontece aqui no Brasil. No entanto, a proliferação de fake news e campanhas de desinformação patrocinadas pelo modelo de negócio das plataformas e pelos interesses políticos da extrema direita mostram que o jornalismo profissional se tornou ainda mais vital para as sociedades e as democracias.
O jornalismo não é perfeito, assim como as democracias também não são. Mas ambos estão sendo testados em seus limites. A insuportável arrogância de Trump é uma expressão deste momento de encruzilhada e projeta um futuro incerto para todos nós.