As séries boas, ruins e fundamentais de 2025

Despejada no catálogo da HBO MAX sem grandes pretensões em janeiro, “The Pitt” foi ganhando tração graças ao boca a boca e chega ao fim de 2025 consagrada como uma das melhores séries do ano. Ela venceu o Emmy na categoria dramática e rendeu a seu protagonista, o subestimado Noah Wyle, sua primeira estatueta depois de anos de rejeição por outro drama médico, o multipremiado “E.R”.

Esse texto não pretende listar as melhores séries do ano. Não exclusivamente. A proposta aqui é um olhar mais aprofundado sobre as séries que pautaram 2025. As boas, as ruins, as surpreendentes e aquelas, independentemente da qualidade do adjetivo, fundamentais.

“The Pitt” é o ponto de partida deste raciocínio porque resgata, no streaming, uma lógica bastante bem-sucedida na TV aberta norte-americana nos anos 90. Acompanhamos a ação, em tempo real, em um pronto-socorro. Diferentemente da longeva “Grey´s Anatomy”, o foco aqui são os casos, a exaustão da equipe médica, o sucateamento da saúde e os dramas dos personagens são os pontos de conexão. O ritmo da série é bem diferente do que estamos habituados nesse liquidificador da cultura bingue watching, introduzida e defendida pela Netflix, e da era TikTok.

Falar em ritmo dissonante é falar em “Pluribus”, a comentada nova série do criador de “Breaking Bad”. O slow burn (narrativa que se desenvolve em conta-gotas) é uma marca registrada de Vince Gilligan e um gesto de resistência nesses tempos de cortes rápidos e microdramas para consumo nos celulares.

A produção da Apple é esteticamente sofistica e se sustenta na qualidade do texto, da direção e da atuação, no caso da excelente Rhea Seehorn, que já havia trabalhado com Gilligan em “Better Call Saul”. Esse “retorno ao básico” garantiu a “Pluribus” o título de série mais inusitada de 2025. A premissa é mesmo. O futuro da humanidade depende da mulher mais triste do mundo (um exagero comedido) depois que todos os habitantes da Terra são tomados por uma felicidade viral – ou alienígena.

A série discute com propriedade desde a ascensão uniformizadora da inteligência artificial à solidão, passando por questões como egoísmo, solidariedade, autonomia e pensamento crítico. Tudo sob um prisma oxigenado.

A Apple também apresentou em 2025 outro grande drama. “Seus Amigos e Vizinhos” trata da melancolia do homem maduro ao colocar Jon Hamm na pele de um gestor de fundos que perde o emprego e passa a furtar bens de seus vizinhos endinheirados para manter o padrão de vida. A sinopse ligeira esconde uma proposta muito mais aguda sobre o deslocamento existencial em meio a pressões sociais e financeiras.

No campo das radiografias, temos ainda “I Love L.A”, que satiriza millenials e geração Z com um misto de afeto e cinismo. A criação de Rachel Sennott (uma das vozes mais interessantes da nova cena do humor dos EUA) captura a ansiedade como estilo de vida e coloca a superficialidade sob o microscópio para enxergar as rachaduras sociais de nossa cultura.

Séries limitadas de impacto

A Netflix continua reinando no departamento das séries limitadas e em 2025 ofertou, quase que por acaso, a produção mais imperativa e viral dos últimos anos. “Adolescência” papou todos os prêmios possíveis (com merecimento!) e invadiu de rodas de bar a podcasts colocando machismo tóxico, sistema educacional, impacto do ambiente digital na educação infantil e outros temas correlatos em pauta.

A série, de um virtuosismo técnico pouco visto na produção televisiva recente, não se arroga a entregar respostas, mas enseja perguntas difíceis e pertinentes, afigurando-se como um ponto de inflexão cultural relevante do ano.

Outra produção caprichada da Netflix trouxe Robert De Niro em seu primeiro papel na TV. “Dia Zero” imagina o colapso em que o mundo é mergulhado com um blecaute tecnológico de meros três minutos. Das implicações políticas às questões práticas, a série abriga a pertinência de um debate contemporâneo em um contexto de entretenimento engajante.

Decepções

Entre as produções que ficaram devendo estão “The Last of Us” e “The White Lotus”. As duas elogiadas séries da HBO voltaram em 2025 com ciclos de episódios consideravelmente inferiores aos que tinham apresentado antes. A HBO ainda falhou com “Welcome to Derry”, prelúdio de “IT – A Coisa”, que se mostrou incrivelmente entediante. Se não foi um bom ano para a HBO, a Amazon também não tem muito o que se orgulhar. Afora o hit de ação “Reacher”, o streaming pouco teve a oferecer de notável para seus assinantes.

“Alien: Earth”, primeira incursão da franquia Alien na TV, foi outra série que decepcionou bastante. Sem carregar as características que fizeram dos filmes um sucesso, a produção de Noah Hawley tentou recalibrar a série com novas camadas e horizontes. Não deu certo.

Surpresas

Veio do Paramount+ a grande surpresa do ano. Se é que podemos tratar uma série criada por Guy Ritchie e estrelada por Tom Hardy, Helen Mirren e Pierce Brosnan como surpresa. Fato é que “Terra da Máfia” foi a série mais pulsante, nervosa e imprevisível do ano. Prato cheio para quem gosta de tramas envolvendo gângsteres, conspirações e violência.  

Um dos nomes mais quentes da Hollywood atual, Glenn Powell é cativante no papel título de “Chad Powers”, disponível no Disney+. Ele vive um quarterback que caiu em desgraça e tenta se reinventar criando um personagem e tentando a sorte no futebol universitário. A série abraça o ridículo da proposta sem deixar de segurar o tranco em questões mais dramáticas.

No limiar, 2025 teve menos séries marcantes do que se poderia supor. Sinal, talvez, dos excessos de uma produção cada vez mais algoritimizada. Ainda assim, as produções que marcaram o ano, para o bem e para o mal, expressam que é possível furar essa força homogeneizadora. Esse é o principal legado de “The Pitt” e companhia limitada.

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