Há três anos, no Dia Internacional da Mulher de 2023, Nikolas Ferreira, deputado mais votado nas últimas eleições, subiu na tribuna da Câmara e fez chacota com as mulheres. Usou uma peruca loira para dizer que, com ela, teria lugar de fala para fazer seu discurso naquele 8 de março. “Hoje, eu me sinto mulher. Deputada Nicole”, ironizou.
Agora, foi a vez da deputada Fabiana Bolsonaro, do PL de SP, usar a tribuna da ALESP e encenar outra bizarrice. Fez a blackface para dizer que mulheres trans não são mulheres, uma forma de atacar a deputada Erika Hilton, que assumiu a presidência da Comissão das Mulheres no Congresso. Numa tacada só, se mostrou racista e transfóbica.
Nikolas Ferreira e Fabiana Bolsonaro são duas expressões da “bancada dos imbecis”. Eleitos pelo voto popular na esteira do bolsonarismo, usam seus mandatos e as tribunas como peças da engrenagem de guerrilha digital da extrema direita. O que valem são os cortes e o engajamento das redes. Pirotecnias que não deixam dúvidas sobre os valores que carregam e representam.
Certamente frustrada por não ser um expoente do bolsonarismo e da extrema direita, Fabiana tem experiência quando o assunto é dizer ser o que não é. Nasceu Fabiana de Lima Barroso, mas se elegeu deputada estadual, em São Paulo, como Fabiana B., escondendo o sobrenome Barroso para, depois, passar a usar Bolsonaro por gosto e opção. Ela não tem nenhuma relação com ex-presidente. É filha do pastor evangélico e deputado federal Adilson Barroso. Ainda assim, foi eleita na raspa do tacho, com 65 mil votos. Cheiro puro de estelionato eleitoral.
Subir à tribuna para atacar Erika Hilton não passa de cálculo para outubro. Faltando poucos meses para as eleições, precisava criar um factoide para sair do incômodo ostracismo, viralizar nas redes, se tornar popular na bolha bolsonarista e garantir sua reeleição. Talvez ela tenha conseguido. O importante era criar a polêmica, mesmo sendo, agora, acusada de cometer racismo e transfobia. Sua blackface levou a representações no Conselho de Ética, pedindo sua cassação, e no Ministério Público, que tem obrigação de se manifestar sobre o caso, dizendo se imputa a ela tais crimes ou não.
O resultado das redes sociais já é conhecido. Ovacionada pela extrema direita e profundamente criticada pela esquerda. Resta saber como a política vai reagir. Se o Conselho de Ética e os deputados da ALESP vão minimizar o caso ou se vão reconhecer a evidente quebra de decoro parlamentar da filha do pastor Adilson. Se não punida, sua reeleição estará garantida. O crime terá compensado.
Mas Nikolas Ferreira e Fabiana Bolsonaro não são os únicos. A bancada dos imbecis é ampla e já protagonizou outras cenas vexatórias. Em agosto do ano passado, quando o STF determinou a prisão domiciliar de Bolsonaro, deputados e senadores da extrema direita ocuparam a mesa diretora das duas casas por 24 horas, usando esparadrapos para cobrir a boca e se amarrando a correntes. Protestaram em apoio ao mito enclausurado numa mansão do Lago Sul de Brasília e, também, para pressionar a tramitação do PL da Anistia, na Câmara, e dos pedidos de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, no Senado. Uma cena patética que só serviu para desgastar a já desgastada imagem do Congresso Nacional diante da sociedade.
Infelizmente, a bancada dos imbecis dá sinais de que não tem limites. São o deserto do bom senso. Até agora, o único lugar de fala que eles provaram genuinamente ter é o da imbecilidade.