Com Lula favorito, direita vai ao extremo

Em 2025, o cenário político brasileiro mudou radicalmente. Neste início de 2026, é difícil lembrar da situação do início do ano passado, em que a aprovação do governo Lula aparecia mais baixa a cada pesquisa e a derrota da esquerda nas eleições era quase certa. Havia dúvidas até mesmo quanto à candidatura de Lula.

Do outro lado, a direita não escondia sua euforia. O otimismo era grande a ponto de figuras do tradicional fisiologismo brasileiro recusarem convites para ministérios no governo. A preocupação entre bolsonaristas e lideranças do Centrão se resumia a se posicionar no melhor lugar para colher os frutos de um provável futuro governo conservador.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Muito em função, para ser justo, da própria direita e das oportunidades que ela deu ao governo para mudar o jogo. Primeiro, no embate em torno das mudanças no IOF e de suas eventuais compensações, que permitiram à esquerda trazer o conflito de classes, a disputa distributiva e a justiça fiscal para o centro do debate. Depois, a articulação da família Bolsonaro, com Eduardo à frente, para livrar Jair da prisão e que levou ao tarifaço de Trump e deu a Lula a chance de recuperar a defesa da soberania nacional como bandeira de esquerda. Por fim, o cerco judicial e a condenação em doses homeopáticas do núcleo golpista sem que houvesse grande comoção ou mobilização da sociedade e ainda contou com reação de um bolsonarismo que, em aliança atrapalhada com o Centrão, tentou blindar parlamentares de processos judiciais e dificultou o debate sobre anistia no Congresso.

A correlação de forças mudou e os sinais mais claros disso vieram em dose dupla, no fim de outubro. No dia 29 daquele mês, Lula assinou a nomeação de Guilherme Boulos como Ministro da Secretaria-Geral da Presidência em uma demonstração clara de que o governo quer mais. Depois de ter recuperado programas sociais desmontados por Bolsonaro, avançado em pautas caras aos trabalhadores – como a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil – e elevado o tom no enfrentamento à extrema direita, Lula mostrou que está disposto a enfrentar grandes interesses para avançar na agenda popular, como acabar com a escala 6×1 e garantir direitos aos trabalhadores das plataformas digitais.

Um dia antes, no Rio de Janeiro, o governador bolsonarista Claudio Castro promovia uma chacina que deixou mais de 100 mortos para a população dos complexos da Penha e do Alemão transportar e reconhecer no dia seguinte. A suposta “megaoperação de combate ao tráfico de drogas” na zona norte carioca veio no momento mais difícil para a direita brasileira nos últimos anos. Não por acaso.

Em um momento de fraqueza, em que Lula aparece como favorito para a reeleição em 2026 e o campo conservador tem dificuldade de conciliar o desespero de Bolsonaro com a prisão, a ambição de governadores pré-candidatos e a insegurança de Tarcísio com uma provável derrota, a direita levou o debate público para a zona em que ela tem mais alento. Primeiro, porque a violência é um problema real que afeta diretamente os brasileiros, especialmente os moradores das periferias das grandes cidades. Segundo, porque assim como a soberania e a justiça fiscal para a esquerda, o tema da segurança permite à direita mobilizar sentimentos de conflito e, consequentemente, pertencimento. Nesse caso, não contra potências estrangeiras ou super-ricos privilegiados, mas com um outro que, muitas vezes, está bem próximo de nós.

No centro do capitalismo, a extrema direita ascendeu nas últimas décadas a partir do enfrentamento à imigração. A vinda de pessoas de países mais pobres em busca de uma vida melhor colocaria em risco os empregos, o bem-estar e a cultura e a identidade dos nativos.

Por aqui, Jair Bolsonaro chegou à presidência e se tornou uma liderança articulando de forma difusa um conjunto de ressentimentos. De homens contra a reivindicação de igualdade por parte das mulheres; de brancos contra a reivindicação de reparação e igualdade por parte dos negros; de setores ricos e médios contra a ascensão de trabalhadores mais pobres, entre outros. Mas a segurança pública, articulada com o efeito nocivo das drogas sobre a estrutura familiar, é provavelmente o campo mais fértil para a extrema direita brasileira, onde ela encontra uma agenda propositiva, embora regressiva, que possa chamar de sua. Aqui, diferente da Europa e dos Estados Unidos, o outro que ameaça é o bandido, que muitas vezes se confunde com o pobre, preto e favelado e toca no tema sensível dos costumes e da família.

Vendo que a economia não é um campo interessante para a disputa eleitoral, a direita deixou bem claro para onde pretende correr. Não é preciso muito para saber que a agenda liberal do ajuste, que a aliança entre o bolsonarismo e o Centrão defende a serviço do mercado, não tem muito voto. A sua única chance contra Lula em 26 é tirar o debate político desse campo. A chacina de Claudio Castro e o apoio recente ao ataque absurdo de Trump à Venezuela deixam claro que a direita que concorrerá ao Planalto este ano vai ser radical e vai apostar na polarização de uma sociedade que, em parte, rejeita a ascensão dos mais pobres, a inclusão dos historicamente marginalizados e um tipo substantivo de soberania que defende os interesses nacionais e populares.

Estamos começando o ano em posição muito melhor do que começamos 2025. Mas nem por isso devemos acreditar que a batalha será simples. Na Europa e nos Estados Unidos, a extrema direita evoca um povo coeso e um passado romantizado sem imigrantes. No Brasil, o que cabe ao campo reacionário é idealizar e projetar um passado não muito distante em que cada um “sabia de onde vinha e onde deveria ficar”. Em que o povo do campo, da floresta e da favela não ousava questionar essa ordem – e caso o fizesse, encontrava a força dos seus senhores ou de um Estado que a eles servia. É contra esse país que temos um encontro marcado em 2026.

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