Há um ataque orquestrado às empresas estatais no Brasil. A empresa da vez a ser atacada é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – os Correios. A imprensa cria um falso debate técnico para impor uma visão ideológica de estado mínimo. O que nos remete a um debate muito mais denso a ser enfrentado no país, qual o projeto de nação a ser perseguido?
Em meio a um debate frequentemente reduzido a chavões sobre eficiência do mercado e responsabilidade fiscal, a defesa dos Correios como empresa pública exige que se desarme a narrativa liberal em sua própria raiz. O argumento central do privatismo, de que a empresa é deficitária, ineficiente e um fardo ao Estado, não apenas ignora a realidade histórica e econômica dos Correios, mas esconde um projeto claro: a captura privada de uma lucrativa infraestrutura nacional e o desmonte de um poderoso instrumento de soberania e redução de desigualdades. O que está em jogo vai muito além do preço de um selo; é a capacidade do Estado brasileiro de garantir direitos, integrar territórios e construir um futuro menos desigual.
O discurso privatista se apoia na ideia de que os Correios são uma empresa ineficiente e custosa, cujo déficit futuro justificaria a venda. Este argumento é uma construção frágil uma vez que a crítica liberal confunde voluntariamente eficiência social com rentabilidade. É verdade que o setor postal global mudou, com menos cartas e mais encomendas. No entanto, essa transformação exigiria modernização e investimento, não privatização. A “eficiência” que o mercado privado busca é a de servir apenas rotas lucrativas, abandonando milhares de municípios que não geram retorno imediato. A eficiência dos Correios, em sua missão pública, é medida por outros parâmetros: capilaridade universal, integração territorial e execução de políticas de Estado. Abrir mão disso em nome de uma suposta eficiência financeira é trocar um bem público estratégico por um serviço restrito e mais caro para a periferia do País.
O maior ativo dos Correios é sua presença física em todos os 5.570 municípios brasileiros através de quase 7 mil agências e é justamente isso o que o modelo privado considera um “custo”. Para um projeto de nação, é um pilar de soberania e inclusão.
Os Correios não são uma empresa de entregas comum. Eles constituem o braço logístico estendido do Estado brasileiro. É essa rede que permite a maior operação de distribuição de livros didáticos do mundo, garantindo que material pedagógico chegue a escolas na Amazônia, no sertão ou em favelas. É ela que, em parceria com o Banco Central (através do Banco Postal), leva serviços financeiros básicos a cidades onde nenhum banco privado se instalaria, combatendo a exclusão bancária. E foi ela, crucialmente, que durante a pandemia assegurou que vacinas, seringas e materiais de campanhas de saúde chegassem aos rincões mais distantes do país. Privatizar os Correios é desmontar essa capacidade estatal única, terceirizando para o mercado a execução de políticas públicas essenciais, o que inevitavelmente levará a falhas de cobertura e aumento de custos para o Estado no longo prazo.
A disputa pelos Correios transcende a esfera econômica. É uma batalha pelo tipo de país que queremos construir no século XXI. A narrativa da “abertura à concorrência” é um engodo. Em um setor com altas barreiras à entrada e fortes economias de escala, o mais provável não é o surgimento de uma concorrência vibrante, mas a consolidação de um monopólio ou oligopólio privado. O que era um monopólio público, regulado e com fins sociais, se transformaria em um monopólio privado, voltado para o lucro e sem qualquer compromisso com a sociedade. O Estado entregaria de graça uma infraestrutura construída ao longo de décadas com investimento popular, para depois ser refém dos preços e das prioridades definidas por acionistas que não têm o menor interesse na integração do território brasileiro.
A privatização dos serviços postais é apenas a ponta do iceberg. É o início do desmonte sistemático de um braço logístico que pode e deve ser a espinha dorsal para um projeto nacional de desenvolvimento. Em um momento de crises climáticas, sanitárias e necessidade de reindustrialização, um sistema logístico público robusto é ativo estratégico. Ele pode planejar rotas para escoamento da produção agrícola familiar, distribuir insumos para a indústria nacional em crise ou ser a base para um sistema de comércio eletrônico soberano. Privatizá-lo é abrir mão voluntariamente dessa ferramenta de planejamento e ação estatal, em troca de uma suposta “eficiência” que servirá, em última instância, aos interesses do capital especulativo e não às necessidades do povo brasileiro.
Vale lembrar função primordial dos Correios a codificação dos logradouros, ou seja, a criação de CEP. Ter um CEP é o que permite com que toda população em território nacional acesse serviços básicos, os Correios através da criação de CEP é o encarregado de assegurar princípios básicos de cidadania. Neste quesito, em 2025, o governo federal através do Programa CEP Para Todos da Secretaria Nacional de Periferias em parceria com os Correios assegurou que todas as favelas do país agora tenham CEP. É através do CEP que você consegue atendimento no postinho de saúde, matricular crianças na rede de ensino. Por isso, é princípio básico para que uma pessoa seja lida como cidadão.
A pergunta final, portanto, não é “podemos nos dar ao luxo de manter os Correios?”. A pergunta correta deveria ser, podemos nos dar ao luxo de abrir mão de uma ferramenta poderosa de inclusão e construção de um futuro menos desigual? A resposta, baseada na história, nos números e no interesse nacional, só pode ser um retumbante não. A luta é pela defesa do patrimônio público e pelo direito de ter um Estado capaz de servir a todos os seus cidadãos, em todos os cantos do Brasil.