É Pênalti! Nem precisa de VAR para saber que o Master é cria e escândalo do bolsonarismo e do Centrão

Há um falso – e nocivo – debate rolando na imprensa e nas redes sociais sobre o quanto o escândalo do banco Master e os vazamentos expondo as ligações pessoais e negócios ilícitos de Daniel Vorcaro impactam a direita e a esquerda faltando sete meses para as eleições. A crise cai no colo do Lula e do governo ou no de Bolsonaro, Tarcísio e dos partidos que mandam no Congresso Nacional? A verdade é: nem precisa de VAR para saber que as relações umbilicais de Vorcaro era com o bolsonarismo, Tarcísio e com os caciques do Centrão. A crise tem lado. É pênalti claro.

Diante dos fatos que são públicos e amplamente noticiados, não há como não condenar a artificialidade deste jogo de empurra-empurra que muitos jornais e analistas políticos vem fazendo. E mais: é preciso alertar para o perigo que ele representa. Vivemos, a quente, a disputa de narrativa de um tema que inevitavelmente estará em evidência nas eleições. Flávio Bolsonaro e os aquartelados digitais da extrema direita vão bater na tecla de que bastou Lula voltar ao poder para surgir um grande escândalo. Eles apostam no tema da corrupção, além da segurança pública, para pautar a campanha. Sabem que esta é a senha para provocar o sentimento de antipetismo na sociedade. 

É preciso botar os pingos nos is. Vamos aos fatos. O caso Master só veio a público e Daniel Vorcaro, seu sócio e outros nomes da quadrilha foram presos por ações de instituições do governo Lula com autonomia para atuar, algo incomum com Bolsonaro no Palácio do Planalto. Banco Central, CGU e Polícia Federal agiram com a transparência necessária para desbaratar o esquema Master e evitar impactos ainda mais negativos para o sistema financeiro nacional. 

Mas por que dizer que não é preciso acionar o VAR? É só ver a jogada, do início ao fim, do meio de campo até a pequena área. E olhar como a bola foi passando, de pé em pé, por jogadores-chave da extrema direita e do Centrão. 

Daniel Vorcaro só virou banqueiro com o aval de Campos Neto, presidente do Banco Central no governo Bolsonaro. O mesmo Neto que aparentemente fez vistas grossas quando as ilegalidades começaram a aparecer no BC. Por que não engavetar?

Fabiano Zettel, sócio e cunhado de Vorcaro, fez sozinho doações milionárias para as campanhas de Bolsonaro e Tarcísio, em 2022. As maiores, vale o registro. 

Valdemar Costa Neto, presidente do PL, admitiu que Zettel fez doações vultosas para Bolsonaro, em 22, nas contas do partido e da campanha. “Pessoal doa pela força e pelo prestígio do Bolsonaro”, ele diz. 

Tarcísio de Freitas, eleito governador de São Paulo, privatizou a EMAE, empresa metropolitana de água e esgoto, para um fundo controlado por Nelson Tanure, suspeito de ser sócio oculto do Master, por um preço considerado abaixo do valor de mercado. Uma pechincha. O novo controlador pegou o dinheiro em caixa da EMAE e investiu em debêntures podres do Banco Master.  Uma mão lava a outra. Mais um ponto na lista de explicações que Tarcísio deve à população de São Paulo. 

Nikolas Ferreira, o deputado mais bolsonarista da atualidade, usou jatinho particular de Daniel Vorcaro para fazer campanha por Bolsonaro, em 2022. 

Ciro Nogueira, cacique do PP e ex-ministro de Bolsonaro, patrocinou a “emenda Master”, que buscava elevar o limite do Fundo Garantidor de Créditos de 250 mil para 1 milhão de reais. Uma baita ajuda para um banqueiro à beira da forca. Agradecido, Daniel Vorcaro garantiu presença no casamento da filha de Ciro Nogueira.

Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, colocou 1 bilhão dos aposentados do Rio de Janeiro no banco Master, faltando pouco tempo para a casa de Daniel Vorcaro cair. 

Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, também deu sua ajudinha. Autorizou aporte de 12 bilhões do BRB no banco de Vorcaro. 

Ah, mas e Alexandre de Moraes, Toffoli e Lulinha? Os ministros do Supremo devem explicações (e não são poucas) e não podem ser colocados na “cota da esquerda” neste falso debate entre direita e esquerda. O mais importante: ministros do STF não são o governo, por mais que a direita insista na associação. E o filho do Lula? Como o próprio presidente já falou publicamente, ninguém está acima de qualquer investigação. Um recado claro sobre a autonomia da Polícia Federal. Novamente, bem diferente de quando Bolsonaro era presidente e ameaçou trocar o comando inteiro da PF para blindar seu filho Flávio no escândalo das rachadinhas.

O caso Master não é série de uma temporada só. Ainda há muito a ser apurado sobre as engenharias financeiras que fizeram desde que Campos Neto alçou Vorcaro à posição de banqueiro de destaque da Faria Lima. Mas o que existe hoje não deixa dúvidas de que a teia de relações é crise para Flávio Bolsonaro nas eleições de outubro. Mas a disputa de narrativa ainda está aberta, o que merece atenção redobrada. Eles são mestres (masters?) da manipulação de discursos e argumentos.

Carlos Drummond de Andrade já não está entre nós para fazer uma nova versão de seu poema Quadrilha, mas Chico Buarque ainda poderia parodiar a sua própria música, Flor da Idade, e as relações do banco Master. Daniel que amava Neto, que amava Jair, que amava Valdemar, que amava Zettel, que amava Tarcísio,  que amava Tanure, que amava Tércio, que amava Daniel, que amava Ciro, que amava Ibaneis, que amava Nikolas, que amava jatinho, que amava Jair, que amava Zettel, que amava Castro, que amava Daniel, que amava Sicário, que não amava Lauro.

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