E se as favelas do Brasil fossem um país?

O Brasil tem 16,4 milhões de pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, de acordo com dados do Censo do IBGE de 2022. Essa população é maior do que a Bélgica, Suíça, Uruguai, Noruega, e mais dezenas de países mundo afora. No Brasil, se fossem um estado, as favelas seriam o 4° maior, atrás somente de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Mais de 8 a cada 100 brasileiros vivem em favelas. Então, como seria o país favela?

Um país com ausências significativas de políticas públicas que garantam acesso a direitos básicos para sua população. Todos sabemos sobre as origens das favelas brasileiras como territórios de exclusão, marginalização, ação persecutória do Estado. O verdadeiro país dos sem. Sem teto, sem saúde, sem saneamento básico, sem direitos…

O país-favela não resolveu seus problemas. Continua com índices socioeconômicos bastante precários. Segundo o IBGE, quase 70% desse país vive sem acesso a saneamento básico. As vias são precárias, pouco espaço, acessibilidade prejudicada. A crise climática também atinge esses territórios com mais força. Em São Paulo, por exemplo, as favelas têm, em média, 15 ºC a mais do que os bairros do centro expandido, de acordo com estudo do CEFAVELA. Todos sabemos quem se preocupa mais quando o tempo começa a fechar. Já parou pra se perguntar, por exemplo, quem precisou de abrigo por mais tempo na tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul?

As favelas nasceram a partir da herança escravista, que relegou milhões de brasileiros a um país sem acesso ao mínimo de cidadania. É uma marca de países que tiveram a colonização marcada pela exploração da força de trabalho negra e que, ao mesmo tempo, importaram uma elite alheia e, ao mesmo tempo, interessada nessa exploração para manter seus privilégios. Esse nó continua sendo base fundamental do país.

E o processo foi tão segregador e excludente, ou seja, a elite tem tanto desprezo, medo, ódio desse trauma, que as favelas foram sendo construídas como um território à parte. Sempre vista como provisória, clandestina, irregular, bem como negativa, violenta, prejudicial, a favela vai criando dinâmica, cultura e identidade própria. Muitas e muitas vezes em contraposição a essa cidade que a nega.

Historicamente, alijadas da cidade formal, as favelas e periferias do Brasil construíram uma economia de guerra para enfrentar a enorme dificuldade resultante das ausências de políticas públicas. Esses territórios criaram um complexo de tecnologias sociais de apoio mútuo e solidariedade. Na ausência do Estado, outras instituições acabam exercendo o papel de agregação e coesão social. Um exemplo interessante é que há mais estabelecimentos religiosos do que de saúde e educação nas favelas do Brasil.

Mas não é só isso. Durante décadas de abandono e exclusão, formaram-se redes de solidariedade e também de resistência. A cultura, os movimentos sociais de luta por direitos, as creches comunitárias, os mutirões, as associações de moradores… As favelas e periferias brasileiras criaram uma economia da sobrevivência. E sobreviveram.

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Um país de maioria negra, mais jovem que a média brasileira e, que, apesar das dificuldades, sonha, faz planos, mas também age e executa. De acordo com pesquisa do Data Favela, instituto especializado em pesquisa e dados desses territórios, as favelas brasileiras movimentam cerca de R$ 200 bilhões por ano. Contam com mais de 5 milhões de empreendimentos, ainda que a maioria, cerca de 60%, seja informal, ou seja, a favela ainda caminha para a “pejotização”. Os sonhos variam muito, mas esse país deseja ter moradia, dinheiro e educação para desfrutar o futuro.

E hoje, depois de tantas batalhas, de tanta lama no sapato, o discurso de que as favelas guardam o mal da cidade e do país vai retomando seu lugar na cabeça e nas redes sociais dos herdeiros do higienismo. A extrema elite volta a falar em “desfavelização”, não como forma de integrar esses territórios à cidade formal, mas para tratar as favelas como o “quarto de despejo” da cidade, como já nos ensinava Carolina Maria de Jesus, ainda nos anos 50. Desfazer as favelas não para garantir direitos, mas para exterminar as ideias de identidade popular, organização coletiva e solidariedade.

Para nós, do país-favela, esses são valores de sobrevivência, desenvolvidos na ausência de políticas públicas e, ao mesmo tempo, princípios que indicam um futuro baseado não na guerra aos pobres, não na lógica do cada um por si, mas nos ensinamentos dos mais velhos, no respeito à comunidade e na obstinação por dias melhores. O Brasil só será um país completo quando se encontrar com esse país.

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