Para interpretar os conflitos políticos brasileiros e projetar os cenários para as eleições de 2026, é fundamental compreender os movimentos de cada campo político-ideológico que disputa a hegemonia na sociedade brasileira. No âmbito das pesquisas do Observatório Político e Eleitoral (OPEL opelbrasil.com), consideramos que, em primeiro lugar, a polarização entre democracia e autoritarismo tem se configurado como o principal conflito estratégico hoje na sociedade brasileira; e, em segundo lugar, dentro deste conflito, se posicionam hoje os principais campos político-ideológicos: a esquerda com Lula; a extrema-direita com Bolsonaro, e a direita tradicional. O principal objetivo deste texto é explicar a estratégia política e eleitoral de cada um desses campos.
Começando pela extrema-direita com Bolsonaro, que retomou a inciativa no dia 05 de dezembro quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou que será candidato a presidente no lugar de seu pai, Jair Bolsonaro (PL). A notícia de sua candidatura caiu como uma bomba no campo da direita tradicional, cujas lideranças defendem que Bolsonaro deveria apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O ex-presidente, mesmo preso, condenado e inelegível, continua sendo a principal liderança deste campo político, com um potencial de votos que oscila entre 20% a 30% do eleitorado. Apesar disso, este campo em geral, e o clã Bolsonaro em particular, viveram os últimos meses na defensiva. Em parte, por conta do processo contra Bolsonaro pai no STF, e, em parte, pelo erro estratégico brutal de Eduardo Bolsonaro, que foi para os EUA conspirar contra os interesses do Brasil. Por conta disso, a extrema-direita perdeu o monopólio da narrativa patriótica que conservava desde 2017/2018.
O movimento de Bolsonaro com o lançamento do seu filho como seu sucessor pretendeu – e, por enquanto, com sucesso – manter o controle do polo à direita do principal conflito político brasileiro. Nessa estratégia, Flávio, um político ainda jovem, se consolida como uma liderança não apenas para disputar 2026, em que suas chances de vencer parecem menores, mas também pensando no futuro, com as eleições de 2030 sendo uma nova oportunidade para a extrema-direita voltar à presidência da república.
Além disso, ter uma candidatura “puro sangue” garante à extrema-direita uma mobilização de sua base visando a conquista de uma bancada expressiva de deputados federais, deputados estaduais e senadores, garantindo assim que este campo continue protagonizando a disputa de hegemonia brasileira.
Esse cálculo da extrema-direita confronta as perspectivas políticas da direita tradicional, que enxerga na prisão de Bolsonaro uma oportunidade de ouro, um atalho, para encabeçar a polarização contra a esquerda lula.
A direita tradicional tem um programa político em comum com a extrema-direita, baseado no tripé do neoliberalismo na economia, o punitivismo na segurança pública e o conservadorismo nas pautas dos direitos. Estes campos fizeram um acordo na metade do governo Bolsonaro: a direita tradicional garantiu a permanência de Bolsonaro na Presidência diante dos muitos crimes de responsabilidade que ele cometeu durante a pandemia e, em troca, Bolsonaro entregou o orçamento para o Congresso através das emendas parlamentares e do orçamento secreto. Além disso, esses campos marcharam juntos nas eleições de 2022. E é aí que a diferença entre eles apareceu.
Enquanto Bolsonaro e seu núcleo duro usaram os quatro anos de governo para preparar um golpe de Estado, intento que falhou em 08 de janeiro de 2023, a direita tradicional pretende refazer o arranjo institucional para o de semipresidencialismo, no qual o Congresso passa a ser o eixo de poder e não mais a presidência da república.
As razões para esta estratégia da direita tradicional são simples: embora forte nos parlamentos nacional, estaduais e municipais e nos governos Estaduais e nas prefeituras, este campo não tem nenhuma liderança capaz de disputar a presidência da república. Ou seja, os partidos da direita tradicional são proclamados na mídia como “os vencedores” das eleições municipais de 2020 e 2024 pelo número de prefeituras conquistados e, mesmo assim, ficaram a reboque de Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022.
Daí decorre o atual conflito em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro. A direita tradicional cobra dos Bolsonaro que eles entreguem a liderança do seu campo para uma figura supostamente moderada, que seria o governador Tarcísio de Freitas, conformando assim uma espécie de “bolsonarismo técnico”, sem o golpismo e o autoritarismo aberto e comprometido em consolidar a transição para o semipresidencialismo. Em troca, oferece a Bolsonaro uma promessa de anistia em 2027, cabendo ao ex-presidente apenas confiar que tal promessa será cumprida apesar da firme condenação imposta a ele pelo STF.
Até o momento, Bolsonaro não tem confiado nesses “dois pássaros voando” e tem optado por manter o seu “pássaro na mão”, qual seja, o potencial de votos que seu nome carrega. Os próximos meses serão de intensos conflitos e negociações entre esses dois campos. A aposta deste colunista é que Bolsonaro não recuará, como, aliás, não recuou em momento algum desde que se tornou a principal liderança da direita brasileira.
E a esquerda em meio a tudo isso? Este campo está com a estratégia mais arrumada, o que é, neste momento, uma vantagem colossal. O presidente Lula será candidato à reeleição e seu governo terá muitas realizações para mostrar à população. Não por acaso, sua popularidade vem se recuperando desde a metade de 2025.
O risco, nesse caso, é de uma acomodação. Afinal, o aumento da popularidade de Lula se deu por dois pilares igualmente importantes: em parte, por causa das políticas públicas e da narrativa de governo, e, em parte, porque o campo progressista consolidou uma estratégia de mobilização social em torno de temas como a justiça tributária com a taxação dos mais ricos, a defesa da soberania nacional e de agendas como o fim da Jornada 6 x 1. E também por conta do enfrentamento contra o Congresso, que simboliza o arranjo da direita tradicional e da extrema-direita para se auto proteger e retirar direitos do povo, tal como ocorreu na PEC da Blindagem e no PL da Devastação.
A mobilização social continua sendo o único caminho possível para a esquerda manter a ofensiva política e sustentar as políticas e a estratégia do governo Lula. O importante é que o campo progressista vem entendendo isso e, depois do sucesso dos atos de 21 de setembro contra a PEC da blindagem, manteve-se na rua com os atos contra o feminicídio e pela vida das mulheres em 07 de dezembro e nova mobilização contra o Congresso e a anistia para Bolsonaro em 14 de dezembro.