Grammy ratifica protagonismo feminino na música

Entre a veia politizada e shows pomposos, a edição de 2026 do Grammy expressou uma tendência pouco iluminada na música contemporânea global: as mulheres estão no topo. Entre 2016 e 2026, 10 vencedores da categoria de Melhor Novo Artista – ou artista revelação – foram mulheres. Meghan Trainor, em 2016; Alessia Cara, em 2018; Dua Lipa, em 2019; Billie Eilish, em 2020; Megan Thee Stalion, em 2021; Olivia Rodrigo, em 2022; Samara Joy, em 2023; Victoria Monét, em 2024; Chappel Roan, em 2025; e Olivia Dean, em 2026. Apenas em 2017, Chance The Rapper quebrou este ciclo.

A estatística demonstra que a força motora da música, seja o pop, o rap, ou o R&B, está concentrada nas mulheres. As vitórias em canção do ano, que premia as composições, reforça essa percepção. Desde 2010, foram 11 vitórias de mulheres na categoria. De Adele a Billie Eilish, passando por Taylor Swift, H.E.R e Janelle Monáe.

Vamos para álbum do ano? De 2010 a 2026, foram nove vitórias de mulheres, com direito a quatro triunfos de Taylor Swift. 

Mais do que indícios, esses números atestam um controle criativo na indústria raramente visto. Até o início dos anos 2000, havia um equilíbrio maior entre bandas, cantores e cantoras. Entre os anos 70 e 80, por exemplo, Carole King foi a única mulher a vencer o prêmio de álbum do ano.

Essa mudança de paradigma tem menos a ver com um esforço da Academia de Música de promover igualdade de gênero e mais com as contingências de mercado. A revolucionária Madonna, por exemplo, jamais ganhou os Grammys de maior prestígio e só começou a vencer nos anos 90. Beyoncé, tida por muitos como a sucessora, em estatura e proeminência cultural, de Madonna, só foi ganhar o prêmio de disco do ano em 2025, com “Cowboy Carter”; depois de dinamitar todos os recordes possíveis e figurar como a artista mais indicada na história da premiação.

Lady Gaga, embora tenha todos os seus discos lembrados na categoria, jamais ganhou. Estamos falando de artistas que pavimentaram a música pop como a conhecemos hoje. Mas o Grammy não pode ignorar (mais) os rumos da música e as sucessivas vitórias de mulheres em categoria-chaves indicam esse convencimento à fórceps. Desde 2010 foram 59 mulheres indicadas na categoria de Melhor Novo Artista contra 28 homens. Bandas mistas ou formadas apenas por homens respondem pelas demais nomeações. Até Anitta, em 2023, já bastante consolidada no Brasil, mas emergente nos EUA, concorreu.

A presença da brasileira no Grammy ajuda a entender essa mudança de olhar diante das imposições de uma indústria cada vez mais feminina e consciente de seu impacto. As mulheres estão ocupando espaços na música e sem pedir benção para os homens que antes a dominavam. Taylor Swift e seu movimento de lançar novas versões de músicas cujos direitos foram encampados por um ex-produtor, são sintomáticos dessa emancipação que o Grammy se vê obrigado a reconhecer.

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