Imagina sua única pauta ser um chinelo em pleno fim de ano

Imagina atravessar o encerramento de um ano politicamente intenso e escolher como principal bandeira pública uma propaganda de chinelo. Não uma proposta legislativa, não um debate sobre emprego, renda ou desenvolvimento, não uma discussão sobre o futuro do país. Um chinelo. A reação de setores da extrema direita à campanha das Havaianas não fala sobre publicidade, consumo ou mercado. Fala sobre o esvaziamento do debate político.

O episódio funciona como síntese de um método. Quando faltam ideias, produz-se ruído. Quando não há projeto nacional, fabricam-se conflitos simbólicos. A política, nesse ambiente, deixa de ser espaço de formulação e passa a operar como palco de indignações artificiais, calibradas para gerar mobilização emocional, não para enfrentar problemas concretos.

A chamada guerra cultural cumpre exatamente essa função. Em vez de disputar políticas públicas, desloca-se o debate para campanhas publicitárias, expressões culturais ou escolhas individuais. O essencial é empurrado para fora do centro da conversa pública e substituído por controvérsias que pouco dialogam com a vida real da população.

Atacar uma propaganda é mais simples do que discutir como reduzir desigualdades históricas. Convocar boicotes é mais fácil do que apresentar propostas para enfrentar a precarização do trabalho. Criar escândalos simbólicos exige pouco esforço; pensar o país exige responsabilidade, estudo e compromisso com a realidade.

Há ainda um efeito colateral que merece atenção. Ao insistir nesse tipo de agenda, empobrece-se o debate público e naturaliza-se uma política baseada em distrações. Questões estruturais desaparecem da discussão cotidiana, substituídas por episódios efêmeros que se esgotam rapidamente, apenas para dar lugar ao próximo alvo da indignação.

Transformar uma campanha de chinelos em “ameaça ideológica” não revela vigilância moral nem coerência política. Revela desorientação. Revela a dificuldade de articular propostas capazes de dialogar com os desafios concretos do país. O problema nunca esteve na publicidade. Está na ausência de um projeto nacional que vá além da reação e do ruído.

A política, quando se afasta da realidade, perde sentido. E quando se reduz à disputa permanente de símbolos, deixa de cumprir sua função mais básica: oferecer caminhos, construir soluções, produzir futuro. O Brasil precisa de debate público à altura de sua complexidade, com responsabilidade, densidade e compromisso com a vida concreta das pessoas.

Quando a principal pauta é um chinelo, o que se expõe não é um risco à sociedade, mas um sinal de alerta sobre o empobrecimento do debate. Mais do que reagir a símbolos, é preciso voltar a discutir o essencial. O país exige mais. A democracia também.

Mais de Márcio Jerry