Maria Corina Machado. De Nobel da Paz a avalista da extrema direita

Há contradições que a política tenta disfarçar. E há contradições que se exibem sozinhas, em sequência, diante das câmeras. María Corina Machado recebeu o Nobel da Paz em 10 de outubro de 2025 como símbolo internacional de suposta resistência democrática na Venezuela. Menos de quatro meses depois, em 15 de janeiro de 2026, foi à Casa Branca e entregou a medalha do prêmio a Donald Trump. Nesta semana, no dia 11 de março, apareceu na posse de José Antonio Kast, no Chile, e emendou elogios a Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Quando esses três episódios se juntam, o que entra em crise não é apenas a coerência de María Corina. É o próprio sentido político do Nobel que lhe foi concedido.

O problema não está em María Corina ser uma líder de direita. Isso sempre esteve claro. O problema está em ter sido transformada em símbolo universal da paz e da democracia ao mesmo tempo em que escolhe se alinhar, cada vez mais explicitamente, ao circuito internacional da direita radical, conservadora e extremista.

Não se trata de um episódio isolado. Trata-se de um padrão político. Trump não apareceu por acaso. Kast não apareceu por acaso. Flávio Bolsonaro não apareceu por acaso. O que se vê é uma líder laureada internacionalmente usando o capital moral do Nobel para legitimar um campo político que tem feito da radicalização, do culto à força e da confrontação permanente o seu idioma comum.

A cena da medalha entregue a Trump é a mais eloquente de todas. Durante anos, o atual presidente dos Estados Unidos afirmou publicamente que merecia receber o Nobel da Paz. O prêmio tornou-se uma obsessão política. O sonho do Nobel permanece presente em seus discursos, mesmo enquanto sua gestão se define por uma política externa marcada por confrontos diplomáticos, pressões militares e ameaças reiteradas a países considerados adversários estratégicos.

Foi nesse contexto que María Corina decidiu entregar a Trump a medalha física da premiação. O gesto não foi diplomático. Foi político. Trump desejava aquele símbolo, e ela decidiu concedê-lo. O próprio Instituto Nobel precisou lembrar o óbvio: a medalha pode mudar de mãos, mas o prêmio não. A distinção pertence à laureada e não pode ser transferida.

Ainda assim, a imagem permaneceu. E a imagem dizia muito.

Ela dizia que o capital moral de um Nobel da Paz havia sido convertido em gesto de deferência política a um líder cuja atuação internacional se apoia na lógica do confronto, das sanções e da pressão geopolítica.

Dois meses depois, a mesma lógica reapareceu no Chile. José Antonio Kast tomou posse em 11 de março como expressão da guinada mais forte à direita no país desde a redemocratização, após o fim do regime de Augusto Pinochet. Sua chegada ao Palácio de La Moneda foi acompanhada por uma agenda política centrada em segurança, controle migratório e endurecimento institucional. Entre as primeiras medidas anunciadas está a construção de barreiras físicas nas fronteiras com Bolívia e Peru para conter a entrada irregular de migrantes.

María Corina não apenas compareceu à cerimônia. Também agradeceu publicamente o apoio político de Kast e defendeu o direito dos países de “proteger suas fronteiras”. Não se tratou de uma visita protocolar. Foi um gesto político claro de alinhamento.

É nesse ambiente que entra Flávio Bolsonaro.

O senador brasileiro foi ao Chile ocupar um espaço político deixado aberto pela ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia, após um gesto pouco diplomático de Kast ao priorizar a presença de representantes do bolsonarismo em detrimento do chefe de Estado brasileiro. Sua presença foi interpretada como tentativa de reposicionar a direita brasileira no cenário continental e reforçar a articulação de um bloco conservador na América Latina.

Mais revelador que o encontro foi o tom. Flávio Bolsonaro tratou María Corina Machado como inspiração política e divulgou o encontro como símbolo de afinidade ideológica. A recíproca foi evidente: María Corina aceitou ser associada ao principal herdeiro político do bolsonarismo.

E aqui está um dos pontos mais desconcertantes de toda essa sequência.

Flávio Bolsonaro não é apenas um senador conservador. Seu nome esteve no centro de investigações sobre o esquema das chamadas “rachadinhas”, envolvendo a apropriação de parte dos salários de assessores em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. O caso se tornou um dos maiores escândalos políticos da última década no país. Além disso, ele é o herdeiro político direto de Jair Bolsonaro, líder associado internacionalmente à extrema direita e condenado por tentativa de ruptura institucional após as eleições brasileiras de 2022.

Agora, Flávio Bolsonaro tenta se projetar como novo articulador continental desse campo político. Ao receber o aval público de María Corina Machado, ganha um selo simbólico de legitimidade internacional que ignora não apenas seu histórico político, mas também as crises que continuam emergindo ao redor do bolsonarismo no Brasil.

O país, aliás, vive novamente um ambiente de suspeitas envolvendo estruturas financeiras e políticas ligadas ao entorno bolsonarista, em meio a investigações que expõem relações entre poder econômico, política e operações bancárias de grande escala na investigação que se desenrola em torno do banqueiro e agora prisioneiro Daniel Vorcaro e seu Banco Master, apontado como uma das maiores fraudes financeiras da história recente do país. Entre os nomes citados por bolsonaristas como “protegidos” para evitar a instituição de uma CPI está o senador Ciro Nogueira (PP-PI), aliado de Flávio e descrito em mensagens atribuídas a Vorcaro como um “grande amigo de vida”.

É aqui que a contradição deixa de ser apenas retórica e passa a ser moral.

Uma laureada do Nobel da Paz não é apenas uma liderança política qualquer. Ela carrega um selo simbólico de autoridade ética diante da comunidade internacional. É exatamente isso que torna seus gestos mais graves.

Ao entregar sua medalha a Trump, ao comparecer à posse de Kast e ao legitimar publicamente Flávio Bolsonaro, María Corina ajudou a conferir ao circuito internacional da direita radical algo que ele sempre buscou: o verniz moral de um Nobel da Paz.

Há quem tente interpretar tudo isso como pragmatismo político. Não é. Pragmatismo é negociar sem perder o eixo. O que María Corina vem fazendo é algo diferente: converter uma premiação fundada sobre valores universais em instrumento de legitimação de uma articulação internacional da extrema direita.

E diante desse alinhamento cada vez mais explícito, torna-se difícil sustentar que María Corina Machado represente, de fato, os valores democráticos que o Nobel da Paz afirma reconhecer.

Não é desinformação. Não é ingenuidade. María Corina Machado sabe exatamente o que está fazendo.

Ao entregar sua medalha a Donald Trump, ao se alinhar a José Antonio Kast e ao legitimar Flávio Bolsonaro, ela não comete um deslize político. Ela faz uma escolha.

No Chile existe uma palavra para quem insiste em agir contra o próprio bom senso: weona.

María Corina certamente não é uma mulher ignorante. Mas a história talvez registre que, ao transformar o capital moral de um Nobel da Paz em aval político para a direita radical internacional, decidiu agir exatamente como os chilenos descrevem: pasándose de lista… y quedando de weona.

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