O grande barato do Oscar é que se trata de uma campanha político-eleitoral e, como em toda campanha política, não se trata apenas da melhor plataforma – no caso, a qualidade e predicados do filme -, mas também, e fundamentalmente, a percepção que se constrói em torno de sua candidatura; os apoios angariados, a calibragem do discurso e a adoção de uma narrativa capaz de ressoar com os votantes.
É neste contexto que o mês de janeiro, quando se definem os candidatos ao Oscar e a campanha se intensifica, é decisivo. Falar do pedigree de “O Agente Secreto” é chover no molhado. Para além do triunfo em Cannes, que nos últimos anos tem sido uma alavanca valiosa para filmes que almejam o Oscar, o longa tem em Wagner Moura uma figura de bom trânsito em Hollywood – já fez de séries como “Narcos” a filmes como “Guerra Civil” -, e em seu tema, um eco potente contra as amarras do autoritarismo.
O fato do cinema brasileiro estar pop em Hollywood, na esteira do Oscar de “Ainda Estou Aqui”, ajuda a vitaminar uma candidatura defendida por uma distribuidora experimentada em emplacar filmes artísticos no Oscar. “Parasita”, “Anora” e “Anatomia de uma Queda” são alguns exemplos recentes e bem sucedidos da Neon (no Brasil, o filme tem distribuição da Vitrine Filmes).
É da Neon, também, os principais concorrentes do filme de Kleber Mendonça Filho na temporada. A empresa trabalha as candidaturas do norueguês “Valor Sentimental”, do iraniano, mas que concorre pela França, “Foi Apenas um Acidente” e do sul-coreano “A Única Saída”. O congestionamento de oscarizáveis não preocupa já que há times montados para promover cada um deles no melhor de suas possibilidades.
Janeiro já começou com tudo para “O Agente Secreto” com o triunfo no Critics Choice Awards, premiação outorgada por um colegiado de críticos de TV e internet dos EUA. O longa brasileiro não era o favorito na disputa, mas sua vitória, aliada aos prêmios dos círculos da crítica de Los Angeles e Nova York, ajuda a colocar o filme em mais evidência nesse momento crucial para suas pretensões na temporada.
O Globo de Ouro, que acontece no próximo domingo (11), pode ajudar a sedimentar uma até certo ponto inesperada condição de favorito ao Oscar. Veja bem: a questão não é a disputa pela indicação, mas a vitória. Em outros tempos, o cinema brasileiro, mesmo com candidatos sólidos, chegava nesta etapa da corrida com chances adversas. A indicação de “O Agente Secreto” já era razoavelmente segura desde o fim do último festival de cinema outonal, Veneza.
Uma vitória no Globo de Ouro, onde o favorito ainda é o norueguês “Valor Sentimental”, colocaria “O Agente Secreto” em posição muito favorável na semana em que os votantes do Oscar irão escolher os indicados – as nomeações serão anunciadas em 22 de janeiro.
Há alguns elementos que reforçam a candidatura de “O Agente Secreto”. Além da festejada atuação de Wagner Moura, cotado para uma vaga entre os finalistas no Oscar, o filme figura na pré-lista da novíssima categoria de Escolha de Elenco (Casting), o que indica um apreço pelo trabalho de elenco do filme – e os atores constituem o maior grupo de votantes do Oscar. O apoio deste grupo é vital para a vitória de um filme. Novamente, o norueguês “Valor Sentimental”, cujo elenco pode receber quatro menções à estatueta dourada, é o maior rival.
Outro campeonato

Vencida a fase das indicações, a corrida propriamente começa, já que você está no Oscar e disputa com outros efetivos concorrentes e não aspirantes. É como se a pré-campanha desse vez à campanha oficial. Como tal, certas regras passam a balizar a atuação dos candidatos, mas é certo dizer que o beija-mão passa a ser condicionante de sucesso. A presença em prêmios menores, tapetes vermelhos e sessões especiais para convidados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood passa a ser um imperativo.
Até aqui, esse lado operacional da campanha tem sido tirado de letra por Kléber e Moura. De capas de revista a podcasts, o duo tem aproveitado essa plataforma para inflar a expectativa nacional em torno do Oscar, aproveitando as lições deixadas pelo sucesso, principalmente no contexto das redes sociais, de “Ainda Estou Aqui”.
Vencer o Oscar pouco tem a ver com o fato de ser o melhor, mas sobre ser aquele que melhor se conecta com as expectativas, perspectivas e anseios do momento. Mais internacional, jovem e diversa, a Academia já não se circunscreve tanto como outrora a questões políticas e de costumes, embora eles ainda sejam parte significativa de muitas escolhas. Há uma preocupação latente, porém, com o bojo cultural. Justamente por isso a Neon foca na importância de “O Agente Secreto”, na sua atemporalidade, no seu amor pelo cinema, no seu repúdio ao autoritarismo. Pode dar muito certo!