O instituto Atlas divulgou na manhã desta quarta (25) uma pesquisa sobre as eleições presidenciais com um dado preocupante para quem defende a democracia: pela primeira vez, Flávio Bolsonaro (PL) aparece numericamente a frente de Lula no 2º turno. O candidato da extrema-direita marca 46,3% contra 46,2% do atual presidente.
Tais números não devem ser motivo para pânico, até porque as simulações de 2º turno são mais fragéis nessa altura do campeonato, quando ainda falta muito tempo para o começo das eleições. Mas, visto em conjunto com outros dados da pesquisa, servem sim de alerta sobre a força da extrema-direita e o perigo real que paira sobre a democracia brasileira.
A primeira dimensão preocupante é a da avaliação do presidente e do governo Lula. Lula segue com uma desaprovação maior que a aprovação: 51,5% de desaprovação contra 46,6% de aprovação, sendo que aprovação caiu 2% na comparação com o último levantamento, feito janeiro de 2026. No mesmo sentido, as pessoas quem avaliam o governo como ruim/péssimo somam 48,4% contra 42,7% que entendem o governo como ótimo/bom e 8,9% que interpretam como regular. Aqui, o mais grave é que o ótimo/bom caiu quase 5 pontos de janeiro, quando estava em 47,1%, para o atual marco em fevereiro. E o regular subiu 4,5%.
É possível recuperar essas pessoas que estavam satisfeiras e agora estão mais reticentes, mas para isso é fundamental entender o significado dos números. Em parte, eles refletem os eventos conjunturais mais imediatos, em especial toda a polêmica em torno da homenagem que Lula recebeu de uma escola de samba no Carnaval do Rio de Janeiro.
Entretanto, mesmo com todos os bons números da economia que se consolidaram em 2025 – crescimento da renda, inflação controlada, geração de emprego batendo recorde – e mesmo com a melhora na comunicação e mesmo com os acertos do governo em pautas como o fim da Jornada 6 x 1, Lula segue mais desaprovado do que aprovado. E isso só pode ser compreendido a partir de elementos mais estruturais que convergem em favor da extrema-direita.
Por um lado, a polarização segura uma melhora na avaliação do governo. As pessoas mais inclinadas à direita rejeitam vincular as boas notícias da economia às ações do governo. Por outro lado, tais indicadores são insuficientes para produzir uma sensação de bem estar e melhora da qualidade de vida diante de outros problemas como a mobilidade urbana, a violência e os eventos climáticos extremos. Atravessando tudo isso, há a dinâmica algortimica das Big Techs controlando as informações e produzindo uma sociabilidade competitiva e conflitiva que piora a sensação das pessoas sobre o mundo e sobre os governos e a democracia.
Trata-se de elementos globais, que têm atuado na política e nas eleições nas américas e na europa com força já há uma década e que voltam a influenciar o Brasil de modo decisivo. E que, em conjunto, representam um perigo real para a democracia, podendo levar a extrema-direita de volta ao poder.
Nas simulações de 1º turno, que são mais precisas na captura das tendências eleitorais do que as de 2º turno, Lula continua na frente de Flávio Bolsonaro nos três cenários testados pelo Atlas, mas a distância entre os dois diminuiu: no melhor cenário em janeiro, Lula marcava 48,8% enquanto Flávio obtinha 35%, uma distância de 13,8%; agora, em fevereiro, no melhor cenário Lula tem 45,1% e Flávio 39,5%, uma diferença de 7,1%. No pior cenário, a mesma diferença caiu para 5,6%, com Lula alcançando 45,1% contra 39,5% de Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro aumentou sua competitividade na medida em que se consolida na elite política e no eleitorado em geral como o sucessor de Bolsonaro. Isso permite que a extrema-direita retome sua organização partidária, decidindo os palanques, mas também saia da defensiva na sociedade, organizando sua tropa. A marcha organizada por Nikolas e a ofensiva que esse campo imprimiu nas redes por conta da homenagem à Lula no carnaval são exemplos disso. Novas frentes virão nos temas da segurança pública – na medida em que os governadores estaduais de direita estimulem a violência das PMs – e na economia em questões como o aumento de impostos para componentes tecnológicos.
O campo democrático e a esquerda precisam contra atacar na mesma moeda, tanto na articulação política quanto na mobilização social. Na primeira dimensão, o presidente Lula vem consolidando palanques nos estados e incidindo para dividir os partidos de direita, em movimentos necessários para enfraquecer o palanque bolsonarista.
Porém, essa ação na dinâmica é insuficiente se a esquerda não retomar a dinâmica de mobilização social e a unidade que marcou a retomada da inciativa e da popularidade de Lula no segundo semestre de 2025 em temas como soberania nacional e a rejeição à PEC da Blindagem, com a campanha Congresso é Inimigo do Povo.
É fundamental que a candidatura de Lula represente não apenas os feitos do governo, tais como a isenção do IR, a saída do mapa da fome, a retomada do emprego e do crescimento econômico, entre outras, mas também a conquista de novos direitos para o povo, como o fim da Jornada 6 x 1 e a Tarifa Zero no transporte público. O campo democrático e a esquerda precisa aprofundar seus processos de unidade política, social e eleitoral para enfrentar o desafio da mobilização e derrotar a extrema direita no Brasil.