Nesta semana, o jornalista Eduardo Azevedo propôs uma chave de leitura particularmente fecunda para compreender o radicalismo contemporâneo: a noção psicanalítica de posição esquizoparanoide, marcada pela incapacidade de sustentar ambivalências. Em termos simples, trata-se de um modo de funcionamento psíquico que organiza o mundo em polos rígidos — o bom e o mau, o certo e o errado — eliminando zonas intermediárias. É uma ideia poderosa porque permite deslocar o debate do campo exclusivamente político para uma dimensão mais profunda, que é a forma como percebemos e organizamos a realidade.
Eu gostaria de complexificar (ainda mais) esse debate. Se a esquizoparanoia descreve um estado psíquico, a guerra cultural, conceito formulado por James Davison Hunter, descreve o campo onde esse estado se materializa socialmente. Trata-se de uma disputa pela produção de sentido, uma arena em que diferentes grupos tentam definir o que é legítimo, moralmente aceitável e socialmente desejável. No Brasil contemporâneo, essa disputa atingiu um grau de capilaridade tal que se infiltra em todos os espaços; inclusive naqueles que, à primeira vista, parecem apenas entretenimento.
É nesse ponto que o “Big Brother Brasil” se revela menos como um programa de televisão e mais como um dispositivo sociológico. O “BBB 26”, atualmente no ar, oferece uma espécie de laboratório vivo da guerra cultural brasileira. Não porque seus participantes sejam intelectuais ou formuladores de ideias, mas justamente porque não são. Ali, a disputa por narrativas emerge em estado bruto, sem mediações sofisticadas, expondo com clareza as engrenagens do debate público contemporâneo.
Tomemos como exemplo a figura de Ana Paula, participante que já traz consigo um capital simbólico acumulado fora da casa. Sua trajetória prévia na mídia e nas redes sociais a coloca, desde o início, como favorita. Ao seu redor, formam-se bolhas de apoio altamente engajadas, que operam de maneira semelhante a comunidades políticas digitais: produzem narrativas, defendem posições, atacam adversários. Do outro lado, há grupos mais fragmentados, com menor capacidade de mobilização, que tentam disputar esse espaço simbólico.
O que está em jogo, no entanto, não é apenas a vitória no reality. É a definição de sentido. Quem é justo? Quem é incoerente? Quem merece permanecer? Essas perguntas, aparentemente triviais, reproduzem em escala reduzida as mesmas disputas que atravessam o debate público mais amplo.
O aspecto mais inquietante dessa dinâmica é a rigidez das posições. Mesmo quando seus favoritos se mostram contraditórios, expressando comportamentos que, fora da casa, seriam criticados pelos próprios apoiadores, a defesa permanece inabalável. Evidências são relativizadas, incoerências são reinterpretadas, falhas são minimizadas. Não se trata mais de avaliar o comportamento em si, mas de proteger a narrativa construída em torno daquele personagem.
Aqui, a leitura de Eduardo Azevedo ganha densidade. A ausência de ambivalência não é apenas um fenômeno individual; ela se torna um padrão coletivo. A realidade deixa de ser algo a ser interpretado e passa a ser algo a ser defendido. O sujeito não observa o mundo, mas o organiza a partir de uma necessidade prévia de coerência identitária.
Essa dinâmica produz um efeito particularmente interessante: a dissolução das categorias políticas tradicionais. Pessoas que se identificam como progressistas adotam, no contexto do jogo, posturas profundamente reacionárias. A coerência ideológica cede lugar à lealdade afetiva.
É nesse ponto que o célebre aforismo de Millôr Fernandes — “no Brasil, a direita é de direita e a esquerda é de direita” — revela sua atualidade desconcertante. O que Millôr capturava como ironia hoje se apresenta como estrutura: a tendência de que diferentes campos ideológicos, diante de disputas concretas, recorram a mecanismos semelhantes de defesa, controle e exclusão.
Outro elemento fundamental da guerra cultural contemporânea também se manifesta com clareza no “BBB”: o chamado hate watching. Assistir para criticar, acompanhar para rejeitar. Engajar para defenestrar. Esse comportamento, que à primeira vista parece paradoxal, tornou-se um dos motores centrais do comportamento digital. O espectador não consome o conteúdo apesar de sua discordância, mas por causa dela.

O hate watching não é apenas um hábito de consumo; é uma prática política. Ele transforma o ato de assistir em participação ativa na disputa simbólica. Cada comentário, cada postagem, cada meme torna-se uma intervenção na construção de sentido. O entretenimento deixa de ser um espaço de fruição e passa a ser um campo de batalha.
Essa lógica se conecta diretamente com o funcionamento das redes sociais, que operam como amplificadores de conflito. Plataformas como Twitter e Instagram, hoje verdadeiras praças públicas digitais, recompensam engajamento, e o engajamento, por sua vez, é frequentemente alimentado por polarização. O resultado é um ambiente em que posições moderadas tendem a desaparecer, substituídas por discursos cada vez mais assertivos e menos abertos à nuance.
O mais interessante, porém, é perceber como essa dinâmica extrapola o universo do entretenimento e estrutura o debate político institucional. Tome-se, por exemplo, a discussão em torno da proposta legislativa que busca equiparar misoginia ao racismo. Trata-se de uma pauta complexa, que envolve questões jurídicas delicadas — desde a tipificação penal até a eficácia das normas na proteção de grupos vulneráveis.
No entanto, o que se observa é a rápida transformação desse debate em guerra cultural. Argumentos legítimos são mobilizados tanto para defender quanto para deslegitimar a proposta, muitas vezes não com o objetivo de aprimorá-la, mas de vencer a disputa narrativa. Perguntas importantes — como a adequação da equiparação ou os efeitos sobre a legislação existente — são absorvidas por um campo de batalha simbólico em que o que está em jogo não é a melhor solução, mas a afirmação de uma posição.
No “BBB 26”, essa lógica aparece de forma quase caricatural. Quando Babu Santana levanta a questão do tratamento desigual entre participantes brancos e negros, evocando, inclusive, o caso de Karol Conká no “BBB21”, ele mobiliza uma pauta social real. Ao mesmo tempo, faz isso dentro de uma estratégia de jogo. E isso não invalida seu argumento; apenas revela a complexidade da situação.
A reação de sua adversária, Ana Paula, ao acusá-lo de instrumentalizar pautas sociais para enfraquecê-la, também é reveladora. Ela identifica corretamente o uso estratégico da narrativa, mas ignora o conteúdo da crítica. Temos, assim, dois níveis de disputa simultâneos: o jogo dentro da casa e a guerra cultural fora dela.
Esse entrelaçamento é precisamente o que torna o “Big Brother Brasil” um objeto tão interessante de análise. Ele condensa, em um espaço controlado, as tensões que atravessam a sociedade. Amplifica comportamentos, explicita contradições, dramatiza conflitos.
Mas há um elemento ainda mais profundo em jogo: a crise da ambivalência. Em um ambiente saturado por estímulos, opiniões e demandas por posicionamento, sustentar a dúvida tornou-se quase impossível. A pressão por clareza — por tomar partido, por definir-se — elimina o espaço para o pensamento mais complexo.
A guerra cultural, nesse sentido, molda a forma como pensamos. Ao reduzir o mundo a oposições binárias, ela simplifica a realidade, mas também empobrece a experiência. Perdemos a capacidade de reconhecer contradições, de revisar posições, de conviver com o desconforto do não saber.
Talvez seja esse o ponto mais importante a ser resgatado. Não se trata de negar a existência de certo e errado, nem de relativizar tudo em nome de uma falsa neutralidade. Trata-se de reconhecer que entre o certo e o errado existe um campo vasto de interpretação, conflito e negociação. Um campo que é, em última instância, o próprio espaço da política.
Observar o “Big Brother Brasil” a partir desse prisma pode parecer um exercício menor. Mas há algo de profundamente revelador nessa operação. Ao deslocar o olhar para um objeto considerado “menor”, somos capazes de enxergar com mais nitidez estruturas que, em outros contextos, permanecem difusas.
O reality show, com seus excessos e simplificações, funciona como um espelho distorcido da sociedade. E, como todo espelho distorcido, ele não inventa deformações; apenas as torna visíveis.