O Flamengo, de Filipe Luís, terminou 2025 em estado de graça, especialmente depois de vencer o seu maior rival no Século 21, o Palmeiras, na final da Libertadores, e se consagrar o único tetracampeão brasileiro no continente. Semanas depois, o desfecho do Mundial contra o PSG, em Doha, doeu, mas a nação rubro-negra virou o ano de cabeça erguida e com o escudo no peito.
O Brasil, do presidente Lula, teve um ano parecido. Pela segunda vez na história, o governo petista tirou o país do Mapa da Fome, segundo a ONU. A taxa de desemprego é a menor já registrada, a economia vem crescendo e o dólar, caindo. Só os juros altos seguem uma muralha difícil de superar – lembram Safonov e os quatro pênaltis defendidos no Qatar.
Com bons números nas pesquisas para as eleições de outubro próximo, Lula também ganhou as manchetes internacionais ao reverter o tarifaço imposto por Donald Trump e, de quebra, ainda acabou com as esperanças da família Bolsonaro em ter o destemperado republicano como aliado de primeira hora. Lula lançou novos programas populares, como o Gás do Povo, a CNH do Brasil e fez seu gol de placa, acabando com o Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais. Promessa feita, promessa cumprida.
Mas além de um bom ano, o que Filipe Luís e Lula têm em comum? Os dois se mostraram certeiros ao dominar e ousar em suas estratégias e táticas. O primeiro, nos gramadas; o segundo, na política. O mais decisivo, no entanto, foi que ambos souberam escalar e fazer substituições na hora certa ao longo do ano. Trocas e escalações que geraram polêmicas, mas que foram fundamentais na temporada e se mostram como o caminho certo para 2026.
Em julho, Filipe Luís barrou Pedro, o camisa 9 nato, e o criticou publicamente em entrevista coletiva. Não estava treinando como os companheiros e, se mudar de atitude, volta como titular indiscutível, foi o recado do treinador. Pedro não gostou, amargou o banco, mas voltou e foi decisivo em várias partidas. A despedida de Pedro, nos últimos dias, só reforça a convicção do técnico. O flamenguista também ousou ao escalar Bruno Henrique como centroavante em parte da temporada, apesar do jogador não gostar da posição de pivô. Mas Filipe Luís bancou a decisão e fez correções necessárias nos treinos, destacando a capacidade de BH recompor a marcação e cabecear.
O técnico flamenguista tem por metodologia ajustar a escalação do time às virtudes do adversário e às características de cada jogo. É aí que se encaixa o equatoriano Plata, muitas vezes criticados pela torcida, mas que é escalado para as partidas mais duras fisicamente. Virou o coringa do elenco, chegando a barrar Arrascaeta, o titular absoluto e maestro do time. Ousadias que renderam a Filipe Luís um ano quase perfeita e a renovação milionária de seu contrato para seguir à frente do Flamengo. A temporada 2026 não começou bem para o lado rubro-negro. Mas alguém duvida da capacidade do técnico de colocar a casa em ordem nos próximos meses?
Lula também soube ousar no “segundo tempo” do seu terceiro mandato, fazendo substituições que se mostraram certeiras entre seus ministros palacianos. Dos quatro nomes que iniciaram o mandato ao lado do presidente no Palácio do Planalto, só Rui Costa, na Casa Civil, segue como titular. Em janeiro, Lula trocou Paulo Pimenta por Sidônio Palmeira no comando da Secretaria de Comunicação, a Secom. Em março, foi a vez de Gleisi Hoffmann assumir o lugar de Alexandre Padilha na Secretaria de Relações Institucionais. Mais recentemente, em outubro, Márcio Macedo deu lugar a Guilherme Boulos na Secretaria Geral da Presidência da República.
Peça-chave na eleição de 2022, o marqueteiro baiano deu uma nova cara à comunicação e iniciou o atual ciclo do posicionamento publicitário do governo federal. Depois de estrear o terceiro mandato com o slogan “União e Reconstrução”, que fazia alusão à necessária retomada de políticas públicas depois dos retrocessos do governo bolsonarista e, também, da tentativa de golpe de 8 de Janeiro, Sidônio conduziu a virada de página, passando a apontar o futuro e a razão de ser da gestão Lula 3: “Governo do lado do povo brasileiro”. Zerar o Imposto de Renda é estar do lado do povo. Médicos especialistas, gás do povo e CNH do Brasil também é olhar para a maioria. Em resumo, gestão e comunicação em plena sintonia. Mas é nos perfis e canais nas redes sociais – mais leves e com linguagem instagramável – que se vê a mudança mais latente. Vem produzindo uma comunicação mais eficaz e criativa, o que certamente é uma das explicações – ao lado, claro, de outras conquistas do governo – para o crescimento dos índices de aprovação do trabalho de Lula e de seus ministros.
A mudança na Secretaria de Relações Institucionais (SRI) teve ganho duplo. Padilha, que assim como Bruno Henrique, no Flamengo, atuava como centroavante improvisado na articulação política, voltou para o meio-campo, assumiu o Ministério da Saúde e deslanchou. Só reafirmou aquilo que todo mundo já sabia: ele é craque à frente de um dos mais importantes pastas da Esplanada. Ao mesmo tempo, Gleisi Hoffmann mudou o xadrez na relação com o Congresso e o cardápio de pressão e chantagens do Centrão. Não tem vida fácil, mas é fato que o governo conseguiu avançar em temas estratégicos. O IR Zero é uma delas.
A substituição mais recente também já traz resultados. À frente da Secretaria Geral da Presidência da República (SGPR) desde 2023, Marcio Macedo fez uma gestão de reconstrução de diálogos com os movimentos sociais e retomada da participação social no governo federal. Recomeçar, depois da terra arrasada pelo bolsonarismo, não era uma tarefa simples. Guilherme Boulos entrou com a missão de ampliar o diálogo e deixar o Lula 3 mais perto das ruas. Em pouco mais de dois meses, criou o Governo do Brasil na Rua, uma iniciativa que vai percorrer todos os estados ainda neste primeiro semestre, levando um feirão de serviços dos programas sociais de várias pastas. O primeiro foi no Sol Nascente, maior comunidade no Distrito Federal. Depois foi a Heliópolis, em São Paulo, e, na semana passada, desembarcou em Macapá. Boulos também criou, junto como Ministério do Trabalho, um GT que reúne trabalhadores por aplicativos e plataformas. Os motoboys, agora, fazem “delivery de reivindicações” – e são ouvidos – no quarto andar do Palácio do Planalto. Outras iniciativas vêm por aí, como o aplicativo de consulta popular para investimentos do orçamento da União e um programa focado para a juventude.
Voltando ao futebol, um palpite. A conquista da Copa do Brasil deixou o presidente satisfeito com Dorival Jr. à frente do Corinthians. Mas ousaria dizer que, se mandasse no Parque São Jorge como manda no Brasil, o presidente certamente iria atrás de um Filipe Luís para as próximas temporadas.