As elites brasileiras resistem bravamente contra o fim da escala 6×1. Também se opõem com firmeza a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Velhos e conhecidos argumentos são mobilizados por “especialistas”, “pesquisas”, notas e reclamos de associações empresariais.
As alegações mais recorrentes são: retração econômica, redução da oferta de trabalho, fechamento de empresas, além das dificuldades que setores da economia enfrentariam com a nova configuração. Esse é o mantra repetido que busca espalhar o medo no pequeno empresariado e entre trabalhadores.
Políticos bolsonaristas e do centrão abandonaram a discrição e já não contêm a sinceridade: “não apoiamos a medida, mas não temos como votar contra em ano eleitoral, a meta é evitar que a matéria seja votada”. Esse foi o compromisso assumido publicamente pelos presidentes do PL e do União Brasil em convescotes do PIB nacional.
O terrorismo econômico, porém, não tem abalado a opinião majoritária da sociedade brasileira. A proposta atravessa com desenvoltura a polarização política do país e desfila impressionante aceitação de 71% da população, segundo o datafolha de março de 2026. Entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, o apoio alcança 83%.
Entre dezembro de 2024 e março de 2026 a aprovação da proposta cresceu 7%. O período coincide com a decisão de Lula em colocar o assunto como prioridade de governo. O ministro Guilherme Boulos foi destacado para mobilizar o tema junto com a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), autora da PEC que iniciou as discussões no país com o mote ‘Vida Além do Trabalho’. O tema também unifica a esquerda e os movimentos sociais brasileiros.
O apelo popular não ocorre por acaso circunstancial. O modelo de jornada 6×1 afeta majoritariamente os segmentos mais vulneráveis. Mulheres, população negra e jovens de baixa renda buscam qualidade de vida e por isso apoiam a mudança de um regime que tem severas implicações na saúde física e mental do trabalhador. Burnouts, adoecimento e depressão estão diretamente relacionados as jornadas extensivas de trabalho.
No Brasil, 93% das mulheres são responsáveis pelos trabalhos domésticos e a maioria chefia os lares como principal responsável financeira, muitas vezes a única. Nesse cenário, avançar na redução de dias e horas trabalhadas é urgente e necessário, criando melhores condições para as mulheres participarem do mercado de trabalho com dignidade.
Em 2025 o Brasil bateu recorde de afastamento de trabalhadores por motivos de saúde mental. Esse número cresce ano após ano, desde 2020, quando enfrentamos a pandemia. Portanto, o país tem a oportunidade de aprovar uma medida que ajude a enfrentar esse quadro desolador e que ainda pode contribuir com aumento de produtividade e até diminuição de custos do INSS e do sistema de saúde.
Mais uma vez os movimentos sociais e os partidos de esquerda encaram o desafio de levar essa disputa para as ruas do país, pressionando o congresso inimigo do povo, desmentindo fake news e fazendo avançar uma agenda fundamental do nosso tempo. E como pano de fundo temos um desafio ainda maior,: o de reencantar o nosso povo com a ideia que é possível conquistar direitos, apostando na mobilização social e na via democrática, mostrando quem está do lado de quem nessa batalha.