Uma contradição ronda a esquerda. De um lado, lamenta-se a falta de trabalho de base e a sedução de parte dos trabalhadores por valores conservadores e pelas lideranças de extrema direita. De outro, as figuras mais admiradas por quem lamenta a suposta falta de apelo popular e radicalidade da esquerda não estão nas favelas, nos bairros ou nos locais de trabalho, mas no Instagram, no X e no Youtube.
É claro que a presença da esquerda nas redes sociais é importante. Sabemos que as pessoas passam cada vez mais tempo com os olhos nas telas, seja para trabalhar, se comunicar, se informar e se entreter. Sabemos também do papel que as redes tiveram para o crescimento de grupos e lideranças reacionárias nos últimos anos. Disputar o ambiente digital com bandeiras e projetos progressistas é urgente.
O debate de ideias é igualmente fundamental. Para transformar o mundo, precisamos compreender a realidade, para onde os acontecimentos sociais apontam e para onde queremos ir. A prática política desprovida de reflexão não leva a lugar nenhum.
Mas essa contradição que ronda a esquerda carrega com ela dois problemas. O primeiro é a incapacidade de fazer uma disputa séria de valores e de incidir sobre a realidade quando se fala apenas para grupos convertidos. Ao se comunicarem apenas com quem já é progressista, influencers de esquerda reforçam o imaginário estabelecido de um pequeno grupo, mas não disputam a consciência do povo.
Para fazer isso, é preciso dialogar com uma realidade e um conjunto de princípios que são mais ambíguos do que gostaríamos. Disputar as formas de enxergar a realidade e despertar questionamentos sobre a ordem de coisas depende de uma tração na realidade, de uma conexão com as contradições da vida prática que a lacração das redes é incapaz de produzir.
Tanto no discurso quanto na prática, o contato com as pessoas, seus modos de vida e de entender o mundo é fundamental. As redes sociais são um espaço de batalha crucial, mas têm dificuldades de transformar seus códigos e suas lacrações em mudança real na vida dos trabalhadores.
Um exemplo que vai na outra direção é o das igrejas pentecostais espalhadas por todas as quebradas do país. Elas apresentam e defendem um conjunto de valores e ideias, mas só têm sucesso em difundi-los porque estão presentes, escutam, acolhem, cuidam, tecem vínculos diante das dificuldades e das tensões do dia a dia das classes populares. Se há uma boa referência para disputar projetos de sociedade entre os trabalhadores mais pobres, essas igrejas estão mais próximas dela do que canais esquerdistas no Youtube.
O segundo problema colocado pela militância das redes diz respeito ao sectarismo que ela produz. A conhecida lógica dos algoritmos estimula e premia a divisão e o conflito. Foi por meio deles, aliás, que lideranças da extrema direita ascenderam, batendo na esquerda e em convenções mínimas de convívio social entre grupos e indivíduos diferentes.
Os influencers mais famosos da esquerda, porém, não têm na direita, no capital ou nas mazelas da sociedade seus alvos prioritários. Eles aparecem, crescem e se consolidam atacando a própria esquerda. O protagonismo deles se sustenta na distinção que reivindicam em relação a uma esquerda que, em muitos casos, encara as contradições do mundo real para transformá-lo e acaba, por isso mesmo, se tornando o seu alvo privilegiado.
No entanto, se o objetivo comum é recuperar a relevância do campo popular a partir dos desejos e sonhos dos trabalhadores reais, não do povo inventado pelas elaborações de influencers pretensamente bem intencionados, é preciso encarar as dinâmicas práticas do mundo real.
Como já disse, o confronto de ideias é fundamental para melhorar a compreensão da realidade e definir as melhores táticas e estratégias para atuar sobre ela. Na conjuntura em que vivemos há alguns anos, porém, o maior inimigo do povo não parece ser a esquerda que enfrenta, na disputa real da sociedade, a ânsia por lucro do capital e o projeto de atraso da extrema direita. As prioridades são, ou deveriam ser, outras. Não é essa a nossa contradição central, como diria Mao Tse-Tung.
De todo modo, há quem procure seguir um outro caminho, que não privilegie a guerra digital dentro da esquerda ou projetos individuais em detrimento de construções coletivas. Não apenas pelos meios institucionais da política, mas também por fora deles. E embora essas iniciativas chamem menos atenção do que a lacração bem produzida das redes, elas têm se dedicado a enfrentar, no seio das classes populares, a força crescente das ideias e das lideranças reacionárias.
Em 2025, foi criado em São Paulo um movimento que, em tempos de atomização social e individualismo, busca juntar, articular, organizar e mobilizar lideranças territoriais e comunidades periféricas em torno de reivindicações comunitárias e regionais, de um lado, e de um projeto popular de transformação social, de outro.
A partir de uma identidade largamente compartilhada e de uma realidade muito parecida de carência, abandono, dificuldades, mas também luta, solidariedade e potência, o Povo Pelo Povo nasceu reunindo mais de 60 comunidades na região metropolitana de São Paulo como um movimento social com três objetivos essenciais.
Primeiro, organizar lideranças e associações de bairro que, isoladas, não se sentem parte de um projeto coletivo capaz de melhorar as condições de vida da sua comunidade e tampouco inseridas em um movimento com uma agenda própria de transformação mais ampla.
Segundo, fortalecer o trabalho social nesses territórios, por meio da articulação de parcerias e voluntários para a oferta de serviços, atividades, mas também acolhimento e cuidado às crianças, às mulheres, aos idosos e aos moradores em geral das comunidades em que o Povo Pelo Povo está presente.
Terceiro, conciliar a presença, os serviços e o cuidado na comunidade com um esforço de disputa das ideias e valores que chegam, de diferentes maneiras, aos seus moradores. Por meio de rodas de conversa, encontros comunitários e do próprio convívio cotidiano, defende-se uma profunda transformação no sentido da igualdade, da justiça e da garantia e expansão de direitos. Sem perder de vista, claro, que esses desafios se inserem em uma sociedade capitalista que precisa ser criticada e superada.
O horizonte do Povo Pelo Povo é, portanto, organizar, fortalecer, politizar e mobilizar comunidades em defesa de demandas que lhe são próprias, mas também de demandas que lhes são comuns de um país com trabalho, moradia, saúde, educação, dignidade e bem-estar para todos e todas.
É muito mais difícil do que o ativismo das redes sociais. Mas é disso que a esquerda brasileira precisa. Especialmente em um momento de instabilidade da ordem, em que as relações de trabalho, o papel do Estado na economia, a redistribuição da renda, os direitos civis e sociais e o regime democrático estão em disputa. Diante de uma conjuntura em que instituições e convenções se fragilizam, há espaço para direcionar as vontades e as demandas populares para a esquerda. Cumpre aproveitá-lo.
Nas redes, é possível contornar ambiguidades, tensões, evitar incoerências, cristalizar princípios radicais e revolucionários. Na vida real, junto às dores, às contradições, aos desafios objetivos e subjetivos das camadas populares, o discurso supostamente radical e revolucionário soam desconexos, sem sentido, elitistas. É nesse momento que as mediações precisam aparecer em forma de respeito, cuidado e acolhimento às práticas e valores que ajudam o povo a enfrentar seus desafios cotidianos.
Para disputar os sentidos das coisas, é preciso mais do que lacração digital e projetos de influencer. É preciso partilhar experiências comuns e desafios práticos que aparecem no cotidiano. É preciso construir confiança, e isso não vem com frases curtas e músicas de fundo de vídeos do Youtube. Vem com presença, com contato direto e permanente com os trabalhadores. Sem isso, dificilmente a esquerda poderá estar mais próxima das saídas para as crises do presente. Para estar junto ao povo que se revolta, se organiza e transforma, é preciso estar junto da luta contra suas carências. E é aqui que o Povo Pelo Povo estará nos próximos anos.