Quem cede a vez não quer vitória – o dilema de parte da esquerda em 2026

Mais um ano decisivo inicia-se na política brasileira. Após três anos da retomada do país das mãos da extrema direita e da tentativa frustrada de golpe de estado impetrada pelo bolsonarismo, teremos esse ano, provavelmente, a última eleição disputada por Luiz Inácio Lula da Silva, em um contexto muito significativo.

Lula governa diante da ameaça à democracia dentro e fora do Brasil. Internamente, a direita e a extrema direita, apesar de estarem divididas, mantêm força política considerável e grande capacidade de influenciar a opinião pública. Continuam sendo maioria nas câmaras estaduais, no Congresso Nacional, nas redes sociais e no exercício do poder econômico.

No plano internacional, o mundo vive assombrado com Trump, que bagunça as relações mundiais e ameaça a própria existência do planeta. É público e notório que os interesses neocoloniais nos minérios de terras raras são a prioridade dos EUA com relação ao Brasil. Sabe-se também que Lula, apesar de seus recentes encontros e conversas, não é o candidato que Trump irá apoiar. Ao contrário, teme-se a entrada das big techs no processo eleitoral para favorecer a extrema direita. Não é especulação. Basta observar processos recentes em vários países espalhados pelo mundo.

Voltando ao Brasil. Em seu 3° governo, Lula reestabeleceu as políticas sociais e o combate às desigualdades, além de tomar partido em questões decisivas da sociedade brasileira. Atento aos movimentos sociais, apontou com prioridade para algumas das pautas mais avançadas dos trabalhadores: o fim da escala 6×1, a taxação de bilionários e a reforma tributária.

Quando foi enfrentado por Trump no episódio do tarifaço, Lula respondeu com altivez e defendeu a soberania nacional. Sua postura ajudou a criar um movimento pela defesa dos interesses nacionais, momento em que a esquerda conseguiu impor derrota importante à direita, retomando inclusive os símbolos nacionais.

Do ponto de vista da esquerda e do campo progressista, um dos elementos mais sensíveis é justamente o papel do Congresso no atual momento do país. Enquanto tudo isso se passava, o parlamento, majoritariamente conservador, pautava temas como blindagem de crimes cometidos por deputados, aumento dos próprios salários e anistia para golpistas, em um claro sinal de desprezo aos interesses das maiorias. É essencial, portanto, lutar pela ampliação das cadeiras progressistas nas câmaras estaduais e no congresso nacional.

Mas, então, qual seria a prioridade da esquerda e dos progressistas em 2026? Forjar seu próprio sucesso em eleições locais? Manter mandatos? Demarcar suas posições? Jogar como nunca e perder como sempre?

Evidentemente que é fundamental ganhar as eleições proporcionais e majoritárias. É absolutamente uma questão de princípio se diferenciar e ter posição. Mas, para além disso, é primordial que esse campo se coloque o desafio de reeleger Lula e, ao mesmo tempo, projete e ajude a construir um possível quarto mandato ainda mais voltado aos interesses das classes populares. O samba de Jorge Aragão nos diz que “quem cede a vez não quer vitória”. A esquerda precisa discutir o exercício de poder.

Aumentar a força e a representação no parlamento e reeleger Lula será um desafio e tanto. A extrema direita tende a crescer e resolver seus problemas de divisão. Jogarão com fake news, financiamento internacional e ajuda das big techs. E mesmo com tudo isso, ainda há quem insista que o papel da esquerda é ser uma “consciência crítica”, que, ao fim e ao cabo, fica restrita a nichos que elegem e até mantém mandatos, mas permanecem frágeis diante do poder totalizante dos super ricos, da direita e da extrema direita desse país.

Mais do que desejos individuais ou de grupos específicos, o momento é de fortalecer um projeto de país que possa ter cada vez mais a cara do povo brasileiro. E, quanto maior o esforço pela unidade e seu sucesso, maiores as condições para que o campo progressista paute e ajude a dirigir um projeto de país. Não apenas para os próximos quatro anos.

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