O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Maduro são inaceitáveis e, acima de tudo, colocam em prática a ideia de Donald Trump de transformar os países da América Latina em seu novo laboratório de Oriente Médio. O que se viu nas primeiras horas deste 3 de janeiro é ação arbitrária de um imperialismo que diz ao mundo “eu não tenho limites”.
Em julho do ano passado, quando decretou tarifaço de 50% contra produtos brasileiros, o presidente norte-americano se justificou com apenas uma frase: “porque eu posso”. É estarrecedor, mas o ataque à Venezuela acontece sob a mesma lógica de poder e escolha. Ao dizer que acompanhou o bombardeio como se estivesse assistindo a um “programa de TV”, Trump banaliza o ato de guerra e diz aos demais países latino-americanos e a todos os organismos internacionais a mesma coisa: “fiz porque eu posso”.
Sob a perspectiva da geopolítica mundial, a data de hoje marca a maior guinada do século 21. Em primeiro lugar, porque a América Latina assume o alvo que há décadas estava na testa dos países do Oriente Médio. Maduro é o Saddam Hussein da vez. Em segundo, porque expõe, de uma vez por todas, a falência da comunidade e dos tratados internacionais de refrear ações unilaterais injustificáveis e ao arrepio do direito que rege a relação entre os países desde a Segunda Guerra Mundial.
Há um terceiro ponto: a fragilidade da narrativa trumpista. Nem o mais inocente dos opositores a Nicolás Maduro deve acreditar que o bombardeio contra Caracas demonstra a preocupação de Trump com a democracia ou o combate às drogas. Se alguém pensa assim, por favor, volte aos livros de História ou ao menos faça uma rápida pesquisa no Google sobre as reais razões que levaram os Estados Unidos a ocuparem o Kwait, nos anos 1990, ou o Iraque, na década seguinte.
Trata-se de um combo extremamente preocupante. Quando se soma a lógica do “porque eu posso”, à revelia do direito e dos organismos internacionais, à narrativa de combate ao narcoterrorismo, temos uma equação que coloca em xeque toda a região. Os cartéis mexicanos justificariam uma ação militar contra o México. O PCC e o Comando Vermelho seriam, por exemplo, desculpas razoáveis para atacar o Brasil. Na prática, o que Donald Trump diz é: o país latino-americano que não se aliar a nós ou se opor aos nossos interesses precisam, a partir de agora, pensar duas vezes. Simplesmente, porque eu posso. Porque eu quero.