Com prêmios internacionais de destaque, do Oscar a Cannes, o cinema brasileiro viveu um intenso 2025 e isso se revela na seleção dos melhores filmes do ano elaborada pelo No Ponto. Do balado “O Agente Secreto” ao pouco visto “Kasa Branca”, passando pelos retratos imaginativos de expoentes da música brasileira (Rita Lee e Ney Matogrosso) e pelo cinema de gênero do visceral “Enforcados”, uma seleção que atesta a multiplicidade do nosso cinema.
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho

Ambientado nas engrenagens opacas do autoritarismo e da vigilância, “O Agente Secreto” constrói um thriller político de tensão contínua ao acompanhar um personagem às voltas com as sombras impostas por sua circunstância. O filme se destaca pela mise-en-scène precisa e pelo roteiro que confia mais nas elipses do que nas explicações, criando um clima de paranoia que dialoga com o Brasil contemporâneo. A direção aposta na ambiguidade como motor dramático, resultando em uma obra densa, madura e formalmente segura.
“Manas”, de Marianna Brennand

No filme que polarizou com “O Agente Secreto” pela vaga de representante brasileiro no Oscar, o olhar feminino estrutura uma narrativa sensível e contundente sobre pertencimento, afeto e sobrevivência. Ao abordar uma espiral de abusos, o filme acompanha trajetórias marcadas por silêncios e gestos mínimos, apostando na força do cotidiano como matéria política. Com delicadeza estética e rigor emocional, a obra evita didatismos e constrói sua potência a partir da escuta, afirmando-se como um retrato íntimo e ao mesmo tempo universal das relações entre mulheres
“Oeste Outra Vez”, de Erico Rossi

“Oeste Outra Vez” revisita o imaginário do faroeste para falar de ciclos de violência e masculinidade em colapso no interior brasileiro. Com paisagens áridas e um ritmo contemplativo, o filme articula tradição e reinvenção, deslocando o gênero para um contexto social específico. A direção demonstra controle formal e consciência histórica, transformando o espaço em personagem e fazendo do silêncio uma ferramenta narrativa central.
“Baby”, de Marcelo Caetano

Delicado e pulsante, “Baby” acompanha uma juventude em estado de descoberta, explorando afetos, desejos e fragilidades com naturalismo e empatia. O filme, outro a se aventurar na radiografia do masculino, se destaca pela câmera próxima aos corpos e pelas atuações desarmadas, que conferem verdade emocional às cenas. Sem romantizar conflitos, a obra encontra beleza na imperfeição e se afirma como um retrato honesto da formação identitária.
“Kasa Branca”, de Luciano Vidigal

“Kasa Branca” investiga os limites entre pertencimento, memória e território ao retratar uma comunidade atravessada por tensões sociais e afetivas. Com forte senso de lugar, o filme constrói uma narrativa coral que valoriza a vivência coletiva e a oralidade. A direção aposta em uma estética crua, porém cuidadosamente elaborada, que reforça o caráter político da obra sem abrir mão da complexidade humana.
“Homem com H”, de Esmir Filho

Misturando biografia, música e performance, “Homem com H” revisita a trajetória de Ney Matogrosso com energia cênica e inteligência narrativa. O filme vai além do registro celebratório ao enfatizar o impacto cultural e político de sua figura, especialmente no debate sobre corpo, liberdade e dissidência. Com vigor visual e interpretação magnética, a obra reafirma a relevância histórica do artista e sua força transgressora.
“Ritas”, de Oswaldo Santana e Karen Harley

“Ritas” propõe um mergulho afetivo e fragmentado na figura de Rita Lee, costurando memória, arquivo e invenção. O filme evita a linearidade biográfica para captar o espírito irreverente e libertário da artista, privilegiando sensações e gestos emblemáticos. O resultado é um retrato vibrante, que traduz em linguagem cinematográfica a ousadia e a inteligência pop que marcaram sua carreira.
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo

Com sensibilidade rara, “A Natureza das Coisas Invisíveis” observa o que escapa ao olhar imediato: emoções contidas, vínculos frágeis e pequenas transformações internas. Na trama, Glória, de 10 anos, passa as férias enclausurada dentro do hospital onde a mãe trabalha e onde já viveu por meses enquanto tratava uma doença cardiovascular. Ela se aproxima de Sofia que está lá para acompanhar a avó internada. O filme aposta em uma narrativa contemplativa e poética, na qual o tempo dilatado e a composição visual refinada ampliam o impacto emocional.
“Enforcados”, de Fernando Coimbra

Adaptação livre de “Macbeth”, de Shakespeare, “Enforcados” tensiona moralidade, violência e desejo ao conduzir o espectador por uma trama de crescente desconforto ético. Com atmosfera sombria e direção segura, o filme explora personagens encurralados por escolhas extremas, sem oferecer respostas fáceis. A força da obra reside na recusa ao maniqueísmo e na construção de um suspense psicológico que reverbera além da última cena.
“O Último Azul”, de Gabriel Mascaro

Em “O Último Azul”, a narrativa se ancora na contemplação do fim – de ciclos, paisagens e modos de vida – para refletir sobre permanência e perda. O filme combina rigor estético e densidade emocional, utilizando a cor, o espaço e o ritmo como elementos dramáticos. É uma obra de maturidade autoral, que encerra sua jornada com melancolia luminosa e forte poder evocativo.