
O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (21) o encaminhamento do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul ao Tribunal de Justiça da União Europeia. A moção foi aprovada por 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções, um placar apertado que evidencia a profunda divisão política em torno do tratado e, na prática, impede sua entrada em vigor por vários meses.
A decisão ocorre apenas quatro dias após a ratificação formal do acordo pelo Mercosul, no sábado (17), quando os países do bloco sul-americano concluíram internamente o processo político do tratado em Assunção, no Paraguai. O contraste entre os movimentos evidencia o descompasso entre as duas regiões e reforça a assimetria do processo de ratificação.
O envio ao tribunal não representa uma rejeição formal ao acordo, mas funciona como um freio institucional que mergulha o tratado em um cenário de incerteza jurídica e política. Na leitura dominante entre parlamentares e analistas europeus, o movimento reflete menos uma dúvida técnica e mais a dificuldade do bloco em sustentar politicamente um acordo que se tornou altamente sensível em temas ambientais, agrícolas e eleitorais.
Um bloqueio político travestido de consulta jurídica
Segundo a interpretação predominante em veículos europeus, o recurso ao Tribunal de Justiça é visto como uma forma de ganhar tempo diante da incapacidade de formar maioria estável para a ratificação. A consulta jurídica permitirá avaliar se o acordo é compatível com o direito europeu, especialmente em relação às competências da União e às obrigações ambientais assumidas pelo bloco.
Na prática, porém, o procedimento empurra a decisão final para além do atual ciclo político europeu, marcado por eleições nacionais, avanço de forças conservadoras e crescente pressão de setores internos contrários à abertura comercial.
Pressão agrícola e agenda ambiental no centro da rejeição
A principal resistência ao acordo vem de países como França, Áustria, Irlanda e Bélgica, onde o setor agrícola exerce forte influência política. Produtores europeus temem concorrência de produtos sul-americanos, especialmente carne bovina, soja, açúcar e etanol, que chegariam ao mercado europeu com custos menores e regras ambientais percebidas como menos rigorosas.
Ao mesmo tempo, a agenda climática ganhou peso central nas decisões comerciais da União Europeia. Parlamentares críticos ao acordo argumentam que o tratado, em sua forma atual, não oferece garantias suficientes de combate ao desmatamento, proteção ambiental e respeito a padrões sanitários e trabalhistas equivalentes aos exigidos dentro do bloco.
Nesse contexto, o acordo Mercosul–UE passou a ser visto como incompatível com o Pacto Verde Europeu, tornando-se politicamente difícil de defender em um ambiente de crescente cobrança por coerência entre discurso climático e política comercial.
Impactos e sinais para o Mercosul
Para o Mercosul, o encaminhamento do acordo ao tribunal representa mais um capítulo de um processo que se arrasta há mais de duas décadas, apesar de negociações técnicas já concluídas. O tratado vinha sendo apresentado pelos países sul-americanos como um pilar estratégico de inserção internacional, diversificação de mercados e atração de investimentos.
O impasse reforça a percepção de que a ratificação depende menos de ajustes técnicos e mais de uma redefinição política profunda na Europa. Também reacende debates internos no Mercosul sobre a dependência do bloco em relação ao mercado europeu e a necessidade de acelerar acordos com outras regiões, como Ásia, Oriente Médio e África.
Estratégia do governo brasileiro após a judicialização
Diante do bloqueio europeu, o governo brasileiro passou a concentrar esforços na aprovação do acordo no Congresso Nacional, buscando consolidar internamente a posição do Brasil e sinalizar compromisso político com o tratado. A leitura no Executivo é que o avanço no Legislativo brasileiro fortalece a legitimidade do acordo e reduz o espaço para questionamentos externos sobre falta de consenso político no Mercosul.
Integrantes do governo avaliam que os entraves europeus têm forte componente político interno e tendem a se prolongar independentemente da posição brasileira, o que reforça a estratégia de manter o acordo vivo no plano doméstico enquanto o processo europeu se arrasta.
Onde isso pode levar
Analistas europeus avaliam que o cenário mais provável é de prolongamento do bloqueio, com o acordo permanecendo em suspenso enquanto o Tribunal de Justiça analisa a consulta. No médio prazo, cresce a possibilidade de reabertura parcial das negociações para inclusão de cláusulas ambientais mais duras e mecanismos de sanção, hipótese que enfrenta resistência nos países do Mercosul por envolver interferência em políticas internas.
A decisão do Parlamento Europeu sinaliza que o acordo deixou de ser apenas um tratado comercial e se tornou um teste político sobre os limites da globalização, da soberania regulatória e do uso de acordos comerciais como instrumento climático. Ao recorrer à Justiça, a Europa adia uma escolha estratégica e transfere para o campo jurídico um impasse essencialmente político.